Entrei no meu quarto não acreditando no que tinha acabado de acontecer. Ao olhar para cama, lembrei do Phelipe. Sentia-me não só aliviada, como agora culpada.
Ok, Giovana... Foi só um beijo! Não vai mais acontecer, ninguém precisa saber disso, ninguém. Estávamos assistindo ao filme quando seu celular tocou e ela teve que atender. É, foi isso o que aconteceu. Só isso.
Deitei na cama ainda tentando me convencer do que havia supostamente acontecido. Adormeci ali, sem perceber... Ao som da chuva que batia na janela.
Terça-feira. Acordei mais cedo que de costume, aliás, tinha ido dormir mais cedo... Faltavam duas horas para sair de casa. Resolvi então tomar café no apartamento mesmo. Abri o armário para pegar o chocolate, quando vi uma caixa com um bilhete em cima:
''Bom dia, gostosa!
Ontem fui falar contigo depois que você saiu do quarto, mas estava dormindo e não quis te acordar.
Fui até aquela casa de chá, lembra? Não parei de pensar em você nem por um minuto. No balcão, estavam vendendo essa caixa com o chá que você gosta e resolvi trazer.
Um presente meu por ontem à tarde...''
Um sorriso, no mesmo instante, formou-se nos meus lábios. Céus! Ela é uma caixinha de surpresas, definitivamente. Desisti do chocolate quente para fazer o chá. Guardei aquele bilhete escrito num papel rosa bebê no pequeno bolso do meu short. As canecas menores ficavam no armário de cima, não conseguia alcançar direito. Não gostava muito de xícaras, pareciam sempre tão delicadas que não conseguia beber chá nelas sem pensar no que poderia acontecer caso eu as deixassem cair. Era o terror! Fiquei nas pontas dos pés para pegar a caneca. Com um dedo, consegui puxa-la, porém deixei escorrega-la, caindo no chão e fazendo um barulho alto, e logo após comecei a sentir algo ardendo no meu pé. Droga, estava cortado! Para piorar, ao invés de quebrar a xícaram quebrei a caneca... Parabéns, Giovana!
Tentei andar até uma cadeira na mesa de jantar, mas meu pé estava com um corte horrível. Sentei no chão mesmo e mal conseguia olhar para o ferimento.
- Ei! Tá bem? - Lara veio ofegando, abaixando para ver o que ocorreu.
- Foi só um corte, nada de mais... Te acordei, né? Desculpa, eu não qu--
- Vou te levar para o hospital, acho que precisará de alguns pontos... - Era nítido a preocupação em seu rosto. Era tão linda comigo... Se fosse o Phe, diria que eu estava com frescura.
- Lara, não precisa, sério. É só retirar, limpar e vai estar tudo bem, não se preocupe, mesmo!
- Ah, é? Tudo bem então... Levanta e tente andar. Se você conseguir sozinha, volto a dormir. - Parou na minha frente, esperando a minha reação. Apoiei-me no balcão e consegui ficar em pé. Fiquei assim por uns segundos, até perceber que era besteira o que estava fazendo. - Então, a senhorita vai ficar aí pra sempre?
- Me leva para o hospital... - Disse baixinho, olhando para o chão.
- O que você disse? - Perguntou cínica, com as mãos na cintura, ainda parada na minha frente.
- Você escutou, Lara...
- Não, não escutei... Vou chegar mais perto para ouvir melhor. - E assim fez. Aproximou-se o suficiente para nossos corpos colarem. Suas mãos me seguravam pela cintura e seus lábios sussurraram pertinho do meu ouvido - Pode falar... Estou escutando agora. - Fiquei toda arrepiada só com aquele toque. Quase perdi as forças que me mantinha em pé.
- Pode me levar... - Respondi com outro sussurro.
Lara colocou meu braço por cima de seus ombros, me ajudando a caminhar. Fomos com meu carro e ela dirigia.
- Não queria ter conhecido o Sr. seu carro assim, mas...
- Mas...?
- Mas nada. - Olhou para mim e sorriu.
Lara cuidou de toda a papelada quando chegamos lá, enquanto eu recebia os pontos. Minutos depois, ela apareceu na sala toda tímida em frente ao médico.
- Tá tudo certo, né? - Perguntou para o médico que estava de costas para ela.
- Aham, ela só vai precisar ficar um tempo em casa.
- Quanto tempo? - O médico virou para olha-la e, na mesma hora, ela pareceu surpresa ao ver quem era.
- Ei, Lara! Como você tá? - Perguntou o médico animado. Estava com um sorriso de ponta à ponta. Deu o último ponto no meu pé e assim foi abraça-la.
- Estou ótima! Nossa, que coisa te encontrar hein... - Ela estava com um sorriso forçado no rosto, parecia nervosa.
- Pois é! Tá fazendo o que aqui? Conseguiu o emprego, foi?
- É...
- Que bom, Lara! E como estão você e a minha irmã? Ela veio junto? Faz um tempo que não falo com ela...
- Não, ela teve que ficar, sabe como é, né... Mas bem, temos que ir, certo, Gi? Olhou para mim com uma cara ''Por favor, vamos sair!''.
- Sim, claro! - Respondi - Ainda tenho que voltar pra casa e arrumar a bagunça que ficou, e depois trab--
- Quem disse que você vai trabalhar, Giovana? - Disse o doutor. - Nem pense em encostar este pé no chão, tá? Pegue umas muletas na recepção e--
- Tudo bem, Guilherme! Passaremos lá, mas agora realmente temos que ir! - Eu estava sentada numa cadeira de rodas. Lara me guiou até a recepção despedindo-se rápido dele.
Voltamos para a casa trocando poucas palavras. Ela me deitou na cama e pediu para que eu não insistisse em levantar. Enquanto isso, foi limpar a cozinha e depois trouxe o chá. Sentou do meu lado, ainda quieta. O silêncio só não era absoluto, porque a televisão estava ligada. Não sabia se quebrava aquele clima, ou fingia não estar incomodada com aquilo.
Not Like The Movies [pt. 09]
16:55 |
Assinar:
Postar comentários (Atom)






0 comentários:
Postar um comentário