Cigarettes, coffee and you. [parte 1]

O sol bateu forte no quarto, despertando-me de um sonho sem sentido. Minhas pernas estavam entrelaçadas às da Marina. Desvencilhei-me devagar para não acordá-la e me dirigi ao banheiro. Lavei meu rosto, escovei meus dentes e fui até a sala. Porra, domingo! Como eu odeio domingos, pensei. Liguei a tevê em busca de algo para assistir, mas não havia nada além de programas sobre vegetação e coisas que não me interessavam nem um pouco.
Desliguei e deitei-me no sofá, pondo-me a pensar sobre o nada, já que não havia coisa melhor para se fazer, mas logo me cansei, pois o nada, para mim, é demasiadamente desinteressante e monótono. Busquei por algo nas prateleiras ou na mesa da cozinha. Vi um livro qualquer e pus-me a ler.
O silêncio tomava conta da sala enquanto eu estava no sofá, ainda de calcinha e sutiã, lendo. Meus olhos viam cuidadosamente aquelas palavras, mas elas não faziam sentido; não formavam uma frase completa. Meu pensamento estava em outro local, mas eu não sabia bem qual era.
Pouco tempo depois, Marina apareceu na sala com seus cabelos presos num rabo de cavalo alto e bagunçado.

— Que horas são, amor? — perguntou ela, passando a mão pelo rosto inchado de tanto dormir.
— Acho que onze — respondi. — Você quer comer alguma coisa? — perguntei, já me levantando para preparar algo.
— Não precisa. Não estou com fome.

Ela sentou ao meu lado, pegou o controle e ligou a tevê, colocando num canal qualquer, impedindo-me de continuar minha leitura. Tudo bem, sou invisível agora, mas quem se importa, não é?, pensei. Senti-me obrigada a levantar e procurar outra coisa para fazer. Usei a cozinha como refúgio e então fui preparar meu melhor amigo para alegrar minha manhã: café.

Entre um gole e outro, eu reclamava em pensamento dos dias insuportáveis que estava tendo. Dois anos de pseudo-casamento... Puta que pariu, pensei. Mas o real problema não era há quanto tempo eu estava com a Marina, mas sim o que tudo isso tinha se tornado. Eu ainda a amava, ainda a desejava, ainda alcançávamos o mesmo prazer nas relações sexuais, mas a coisa que eu mais odiei desde o começo da minha vida foi a tal rotina. Aquela palavra me doía dos pés à cabeça. R-o-t-i-n-a. Cada letra arranhava meus ouvidos como uma faca afiada. Todos os dias iguais, sem algo novo, sem nenhuma novidade. Tudo parado. Parecia que o mundo não girava mais.
Eu sei, eu sei que me propus a isso no dia que a convidei para morar comigo e ela, com aquele sorriso lindo de sempre, respondeu-me “talvez”, pois sabia das minhas inseguranças, apesar de sempre ter tido certeza do meu amor. Após uma semana, Marina chegou com suas coisas aqui, fazendo-me (se é pra ser clichê, vamos ser) a mulher mais feliz do mundo.
O fato é que não me fazia mal tê-la aqui, mas acabava comigo saber que eu acordaria no dia seguinte e seria aquela mesma coisa: ir ao trabalho, voltar, ter, talvez, uma noite de sexo, dormir e só. Todos os dias. Todas as semanas. Sempre.
Eu queria a Marina. Queria, sim. Mas eu precisava de algo diferente; algo novo. Precisava sentir um vento além do ar poluído de São Paulo batendo no meu rosto. Eu precisava ser uma pessoa nova, pois ser apenas a Anna de sempre estava me aborrecendo. Minha vontade era virar um camaleão para, como ele, poder mudar de pele; mudar só um pouquinho.

Quando minha felicidade momentânea (chamada café) acabou, voltei ao mesmo lugar de antes. Pousei minha cabeça no colo da Marina e seus dedos vieram até meus cabelos, fazendo-me quase pegar no sono.

— Amor, você quer sair para almoçar hoje? — ela perguntou — Estou com vontade de comer algo diferente, não sei.

Comer algo diferente? Pelo menos você só quer isso, pensei.

— Aonde você quer ir? — perguntei.
— Não sei... A Alice terminou com a namorada dela na semana passada e nós tínhamos combinado de sair, mas minha semana foi muito apertada por causa do trabalho, você sabe... Enfim, eu sei que vocês nem se falam muito, mas não custa nada, não é? — ela me encarou com uma carinha triste e, apesar de sentir preguiça de sair de casa, assenti. Era difícil dizer não para a Marina, principalmente quando ela vinha toda carinhosa pedir algo. — Vou ligar para avisar — disse ela, com um sorriso bobo no rosto, fazendo-me rir.

Marina selou meus lábios e foi até o quarto pegar o celular. Deitei-me e continuei assistindo a um programa chato na tevê. Pouco tempo depois, fomos nos arrumar para ir ao tal restaurante que eu nem mesmo sabia o nome.

Quando chegamos lá, Marina e Alice se abraçaram e eu apenas sorri simpática para ela. Sentamos numa mesa distante de todos e então as duas começaram a conversar sobre como relacionamentos às vezes já vêm com o final escrito. Fiquei o tempo inteiro calada, entretida com minha comida, ouvido aquela conversa chata enquanto minha maior vontade era fugir.

— Vou lá fora fumar. Já volto, ok? — falei.

Marina me olhou irritada, pois eu já havia quebrado minha promessa de parar de fumar pela segunda vez na semana, mas pouco me importou. O cigarro ainda era uma das únicas coisas que me faziam aguentar toda aquela mesmice de sempre. A conversa chata delas estava me entediando demais para continuar ali.

 Para falar a verdade, eu nem estava ouvindo direito para saber se era realmente chata, mas não fazia questão de tirar essa conclusão.

— Espera, eu vou também — disse a Alice, iniciando nosso primeiro diálogo do dia.

Ela se levantou, puxando uma carteira de cigarros da sua bolsa. Marina nos encarou com olhar de reprovação.

— Ok. Vou ao banheiro, depois pago a conta e encontro vocês duas lá fora — disse se levantando.

Eu e Alice nos dirigimos até o lado de fora daquele estabelecimento, acendemos nosso cigarro e, pela primeira vez naquela tarde, olhei para ela direito. Seu corpo era bem bonito; seus seios não eram nem pequenos nem grandes, sua cintura era fina e suas pernas também possuíam o tamanho perfeito. Havia uma tatuagem bem bonita no começo de suas costas, perto do seu ombro esquerdo, que ficava visível por causa da sua blusa caída. Seus cabelos castanhos lisos vinham até um pouco abaixo da sua orelha. A presença dela espertara-me mais que o cigarro proibido por Marina que eu estava consumindo.

— Estou com uma vontade infinita de viajar — disse ela, quebrando o silêncio.

Fitei seu rosto que estava direcionado para a rua movimentada e permaneci calada.

— Você não fala muito, não é? — seus olhos viraram para mim.
— É... — levantei um pouco os lábios, mostrando um fraco sorriso.
— Meu, para! Fala alguma coisa — ela disse irritada.

Ri de sua indignação por causa da minha falta de assunto — ou talvez pela minha intimidação por ela chamar tanto minha atenção.

— Eu também queria viajar... — falei num tom baixo dando uma tragada no cigarro.
— E por que você não vai com a Marina?

Porque eu preciso de um tempo só meu. Na verdade, preciso fugir de mim mesma. Preciso mudar de nome por uns dias. Mudar de idade, mudar de identidade. Mudar total.

— É, talvez eu chame...

Dei a última tragada no cigarro enquanto via a Marina atravessar a porta saindo do restaurante. Despedimos-nos da Alice e, de certa forma, agradeci por não tê-la mais por perto. Incomodava-me sentir desejo por outras mulheres. Não que eu fosse um belo exemplo de fidelidade, mas ainda prezava o compromisso que possuía com Marina.
O restaurante não era longe, então fomos andando até o apartamento. Durante o caminho, eu e Marina não trocamos muitas palavras. Comentamos apenas sobre a comida de lá.
Quando chegamos, fomos assistir um filme que estava passando na tevê e ficamos assim até ela pegar no sono. Rotina.

No dia seguinte, acordamos cedo por causa do trabalho. O céu estava mais cinza que o normal e o clima estava frio. Após pegarmos o metrô, acompanhei a Marina até o seu escritório de contabilidade, já que ficava perto do jornal onde eu seria obrigada a passar a manhã inteira escrevendo matérias que, geralmente, não me interessavam em nada.
Por um presente do céu ou sei lá da onde, toda segunda-feira eu trabalhava apenas no turno da manhã. Às 11h eu já estava contando os minutos para poder estar em casa novamente, deitada sozinha entre meus travesseiros, assistindo filmes até a Marina chegar quando já estivesse anoitecendo e passar horas me contando seu dia estressante.
Quase na hora de ir embora, uma chuva sem fim começou a cair. Felizmente, a estação de metrô ficava quase ao lado do jornal, então eu não me molharia muito.
Nunca gostei de chuva, mas, como não tinha outro jeito, corri até chegar ao apartamento. Minha roupa estava molhada e meu cabelo estava “a visão do inferno” quando cheguei diante da porta e me deparei com a Alice, encharcada, com um sorriso sem graça nos lábios. Ela estava incrivelmente bonita, mesmo estando completamente molhada. Seus cabelos desgrenhados grudavam na sua face e sua blusa branca fazia o sutiã aparecer um pouco. Linda. Muito linda

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