Marina acordou às 19h30 e ficou comentando sobre o frio que estava fazendo. Às 20h, fui tomar banho com pouca coragem. Após isso, separei uma calça e uma blusa preta básica. Coloquei um tênis sujo que estava embaixo da cama e passei um lápis nos olhos que ficaram completamente borrados depois disso. Eu ainda não havia comprado bebida, então decidi que esperaria Alice chegar para convidá-la, já que sabia do “não” que a Marina diria, com a desculpa de estar cansada.
O relógio marcava 21h15. Eu estava inquieta andando pela casa. Não aguentava mais aquelas mesmas paredes em minha frente. Quando eu já estava decidida a sair sozinha para comprar logo as bebidas, a campainha tocou.
— Amor, atende — Marina gritou do banheiro.
Fui até a porta e a abri. Era ela. Seus cabelos castanhos estavam mais ondulados. Sua maquiagem forte a deixou mais linda que o normal. Por um momento, tive vergonha de estar daquela forma. Ela vestia um casaco escuro por cima de uma camiseta preta de uma banda qualquer. Linda.
— Oi — Alice disse sorrindo.
— Oi — sorri.
— Quer um? — perguntei, lhe oferecendo um cigarro.
— Sim — ela sorriu, pegando um da minha mão.
Acendi os dois e então fomos até o bar que ficava na esquina.
— Você gosta de cerveja? — perguntei quando chegamos lá.
— Na minha opinião, é a melhor bebida de todas. Não que eu não goste de outras. Acho que já provei de tudo e não tenho frescura com nada, mas me acostumei com o gosto da cerveja. Sério, é a melhor — falou empolgada.
Eu ri, pedindo algumas latas para a atendente.
— Você é forte? — perguntei.
— Como assim? — ela me olhou confusa.
— Bebidas... Você demora a ficar bêbada?
— Ah, sim. Não. Muito fraca. Por isso que hoje sou tão louca por cerveja. Antes eu bebida de tudo e chegava a minha casa sei lá como, então fui me acostumando com cerveja, que tem menos álcool, e hoje é minha bebida preferida.
— Nossa, que criancinha — zombei, rindo dela.
— Idiota! Não é culpa minha. Acho que puxei para a minha mãe — ela disse, entortando os lábios. — E de criança eu não tenho nada, ok? — encarou-me com um sorriso malicioso tomando conta do seu rosto.
Estremeci.
— Ok. Então me conta a sua maior aventura — sorri, ainda achando graça do seu jeito bobo.
— Saí de casa aos 19 anos quando me assumi lésbica. Fiz aquela tatuagem para representar isso. Fui morar com minha namorada da época, que estava comigo há alguns meses só. Fiquei lá por uns seis meses, mas as coisas começaram a dar errado. Eu já tinha um dinheiro guardado e já estava trabalhando há um tempinho lá na cafeteria que hoje sou gerente. Aluguei um apartamento pequeno bem longe daqui e fiquei assim até ter condições melhores para alugar um melhor. Hoje, depois de muitas brigas e conversas, meus pais engolem minha situação. Minha mãe, que é um pouco mais maleável, até me ajuda um pouco nas despesas. Resumidamente, minha vida é isso — ela contou sincera.
Marina apareceu de toalha, enxugando o cabelo.
— Oi, Alice — cumprimentou-a rindo. — Vou me vestir e já volto para fazer companhia a vocês duas.
Ela voltou para o quarto, deixando-me sozinha com aquela mulher ali. Meu Deus...
— Eu estava indo comprar bebidas — falei.
— Posso ir com você? Não quero ficar sozinha aqui na sala esperando a Marina — ela revirou os olhos.
Eu ri e assenti. Fui até o banheiro rapidamente para avisar que estávamos saindo, peguei meu casaco e então desci com ela.
— Nossa — disse com os lábios entreabertos. — Nem eu tive essa coragem toda.
— Quem é a criança agora? Quem é? — ela riu, deixando-me sem resposta.
— Olha, mas eu também tenho uma história legal — falei rindo.
A mulher que estava no caixa nos chamou atenção sem paciência, pedindo para pagarmos logo e irmos embora. Dei-lhe o dinheiro, peguei as bebidas e fui seguindo a Alice até o apartamento.
— Conta sua história — ela pediu.
— Ah, desde pequena eu sabia da minha opção sexual, mas me tranquei no armário até os 24 anos, quando conheci a Marina, e então resolvi que estava na hora de me assumir. Meus pais não aceitaram de primeira, mesmo eu não morando mais em casa, mas depois foram vendo que eu estava bem ao lado da mulher que amo — falei, arrependendo-me no mesmo instante de ter citado a palavra “amor”.
Ela abriu um sorriso sem graça e eu desconfiei mais de suas intenções. Não, eu não estou ficando louca... Ela me quer. É claro que ela me quer, mano, pensei. Aquilo só deixava as coisas mais difíceis do que já eram. Eu já estava preocupada demais em lidar com os meus próprios sentimentos... Achar que a Alice também estava interessada me deixava mais perdida ainda. Puta merda.
— Vocês estão juntas há mais de dois anos, não? — perguntou sem jeito.
— É...
Abaixei a cabeça e fomos o resto do caminho caladas.
Chegamos ao apartamento e a Marina já nos esperava sentada no sofá. Alice foi até lá e sentou ao lado dela. Tirei as cervejas da sacola e coloquei no congelador. Peguei três e fui até elas.
— Eu não vou beber, amor — disse a Marina.
— Por quê?
— Tomei remédio ainda agora para dor de cabeça. Falei pra você.
— Hm... E vai ficar aí toda assim? Não vai aproveitar com a gente?
— Acho que vou dormir daqui a pouco. Estou cansada.
— Eu comprei bebida pra nós três, mano.
— Deixa pra próxima, amor. Prefiro ficar sóbria mesmo. Não estou no clima hoje.
Revirei os olhos, entediada com aquele mesmo papo de sempre, fui deixar a cerveja que sobrara no congelador e voltei para ligar o som. Coloquei Kiss para tocar no último volume e sentei ao lado das duas.
— Vocês têm algum jogo legal aí? — Alice perguntou.
— Tenho cartas, mas perdi as fichas para jogar pôquer. Tenho ps2 aqui. Você sabe jogar Guitar Hero? — perguntei.
Marina fez uma cada de tédio, pois odiava aquele jogo (como tudo que eu gostava).
— Não sei muito bem, mas aprendo rápido. Vamos jogar — ela disse sorrindo.
Liguei a tevê da sala, coloquei o jogo e sentei ao lado dela.
— Você não vai brincar? — perguntei para a Marina.
— Não, obrigada. Esse jogo é chato.
Dei ombros e comecei a ensinar a Alice.
Quando lhe expliquei como era, ela entrou em desespero e disse que era péssima em coisas que tinha que pensar rápido. Quase morri de rir na primeira tentativa frustrante dela de jogar. A Marina nos olhava com cara de quem estava achando tudo um saco e aquilo me irritava. Nas três primeiras vezes, ganhei da Alice. Depois, ela começou a pegar o jeito e já era mais difícil vencer.
— Acho que vou dormir — Marina disse, fazendo-me desconcentrar do jogo.
— Não quer mesmo ficar aqui e jogar com a gente?
Ela negou com a cabeça e se dirigiu até o quarto. No começo, fiquei um pouco irritada por ter sido “deixada” ali, mas, pensando bem, eu estava com Alice... E isso já era o suficiente para uma noite boa. Sabe, é a aquela história de “com boa companhia, todo lugar é perfeito”.
— Vamos jogar sério agora? — Alice perguntou.
— Sério como?
— Apostar algo...
— O quê?
— Sei lá. Você tem alguma bebida mais forte aí?
— Acho que tem um pouco de tequila, serve?
— Já disse que não sou fresca com bebidas. Traz pra cá qualquer coisa que eu desço.
Eu ri e levantei para pegar. Voltei sorrindo com uma garrafa que ainda tinha o bastante para umas oito doses.
— Você não vai ficar louca a ponto de não saber onde está, vai? — perguntei, rindo da sua cara.
— Para, meu! Não fico bêbada assim também, né. Mas, de qualquer forma, já aprendi a jogar. Vou ganhar tudo e você que vai acabar bêbada a ponto de não lembrar nem seu nome.
— Rá, duvido!
— Vamos ver então...
Começamos a primeira partida e eu ganhei por alguns pontos apenas.
— Porra! — ela se indignou.
— Eu falei... — sorri da cara dela. — Agora vira.
Coloquei um pouco no copo e dei a ela. Ofereci limão e sal, mas ela negou. Virou daquele jeito mesmo.
— Vamos logo. Vou ganhar agora.
Outra partida. Dessa vez, ela realmente ganhou. Um a um. Nas duas seguintes, eu ganhei. Alice já estava rindo até do quadro na parede. Eu ria da sua cara. Não sei se o álcool a ajudou, mas, nas outras três, ela ganhou. Eu fiquei tão louca quanto ela. A tequila acabou e voltamos a consumir a cerveja. Conversávamos sobre qualquer besteira aleatória que nos vinha à cabeça. Ríamos de qualquer frase mal-elaborada e até do vento que batia mais forte.
— Você não quer descer para fumar um pouco? — perguntei rindo.
— Sim, sim — ela respondeu tonta.
Levantamos com dificuldade do chão e descemos. Eu, bêbada, nem avisei à Marina. A única coisa que lembrei foi de pegar um casaco qualquer para não morrer de frio lá embaixo.
Ficamos andando em frente ao prédio, conversando baboseiras aleatórias, rindo de todos que passavam. Alice abraçava seus braços com frio e eu tinha vontade de puxá-la para esquentá-la, mas certa voz gritava no meu inconsciente ou sei lá onde e não me deixava fazer isso.
— Alice... — falei baixo com o cigarro ocupando minha boca. — Você sabia que cachorro vira-lata demora mais a morrer?
Ela me olhou sem entender e começou a rir sem controle.
— Você tá louca, meu? — perguntou sem fôlego.
— Sei lá... — disse rindo com ela. — Olha para o céu... A lua está bonita hoje.
— Mano, nem dá pra ver a lua direito daqui — ela disse, perdendo o controle de tanto rir.
— Ah, dá sim, meu. É só você olhar direito. Ela tá ali... Linda.
Alice semicerrou os olhos, direcionando-os para a lua.
— Está vendo agora? — perguntei.
— Vendo eu estou, mas quase não aparece... Não achei linda assim.
— Nossa, que insensível! — briguei, dando um tapa no seu ombro.
— Sua gay.
— Sou mesmo. Pior...
Nós ríamos alto falando coisas sem inícios definidos. Seus olhos escuros me encaravam e meu corpo se arrepiava. Talvez pelo frio. Talvez por ela.
— Você tem outro cigarro aí? — perguntei assim que joguei o que sobrou do meu no chão.
— Só sobraram esses. Tem alguma banca aqui perto?
— Não muito.
— Tem algo aqui perto que vende cigarro?
— Não muito — sorri por repetir a frase.
— Porra, meu, não muito quanto?
— Vamos ter que andar um pouco se nós formos lá.
— Se importa?
— Não.
Sorrimos uma para a outra e começamos nossa caminhada. O assunto nunca acabava. Minha vista ainda estava meio turva. O álcool havia tido efeito sobre mim e sobre ela também. Ainda ríamos de qualquer frase boba que a outra dizia.
Quando chegamos ao bar mais próximo que vendia cigarros, Alice me convenceu a ficar sentada por um tempo bebendo um pouco mais. Pedimos uma dose de whisky para fazer logo o estrago completo.
— Vamos brincar de adivinhação? — ela perguntou.
— Sou péssima.
— E daí? Nem temos dinheiro para apostar como lá na sua casa. Vamos logo, medrosa.
— Ok — respondi sorrindo.
— Então... O que mantém sempre o mesmo tamanho, não importa o peso?
Passei horas inúteis pensando e não obtive uma resposta sensata.
— A balança — ela respondeu rindo da sua própria piada sem graça.
— Dããã. Isso não foi engraçado, meu — respondi rindo da sua cara.
— Você riu, mano. Cala a boca!
— Ri de você, sua besta.
— Sim, você é uma burra. Errou. Eu podia ganhar muito dinheiro seu com isso.
— Hm. É minha vez agora... Vamos ver. O que são vários pontinhos amarelos na parede?
— Meu, odeio piadas de pontinhos. Eu nunca acerto.
— Ah é? — sorri.
— Ah, mano, não sei não. Qual é a resposta?
— Fandangos alpinistas — respondi séria.
Ela riu durante horas, roubando risos descontrolados de mim. Era tão involuntário.
Ficamos muito tempo contando piadas sem graça e rindo como loucas naquele bar vazio. Duas doses de whisky para cada uma, três latas de cerveja. Uma visão completamente embaçada, mas capaz de enxergar o sorriso dela. Ele era tão bonito... Seus cabelos, seus olhos, seu queixo, seu nariz, seus lábios. Tudo. Porra, mano, para com isso, meu subconsciente gritava de novo.
— Minha vez — disse ela.
— Vai — sorri.
— Adivinha o que estou com vontade de fazer agora.
— Como eu vou saber, meu? — respondi rindo.
— Ah, vai chutando...
— Viajar?
— Sim, mas não é nisso que estou pensando.
— Beber mais?
— Sim, mas também não é isso — ela riu.
— Fumar?
— Meu, também não. Para de falar as coisas óbvias.
— Ah, mano, desisto. Fala você.
— Hm... — ela murmurou e me encarou.
Sua mão se dirigiu até a garrafa de cerveja, levando-a até seus lábios. Ela ingeriu mais um pouco daquele líquido e, após isso, se aproximou de mim. Meu corpo estremeceu involuntariamente. Nossos rostos ficaram separados por alguns centímetros apenas. Eu podia sentir sua respiração leve em minha face. Permanecemos em silêncio por alguns segundos, nos encarando fixamente, bem próximas uma da outra. Um nervosismo sem fim corria dentro do meu corpo. Sentia vontade de beijá-la e, ao mesmo tempo, a imagem da Marina me vinha à cabeça. Alguma luz, por favor? O que eu faço?
E foi pensar nisso que ela encostou seus lábios nos meus. Não consegui reagir. Fiquei parada, sem ação. Eu queria aquilo — e como queria... —, mas não era certo. Não era.
Ela entreabriu os lábios, tentando iniciar um beijo. Por alguns segundos, hesitei. Por mais errado que fosse, eu sabia que queria aquilo, e nunca gostei de ter que me controlar mais do que o possível. Aquilo, para mim, era incontrolável.
Permiti-me desligar do mundo. Esqueci a Marina, esqueci o cara que estava no caixa, esqueci as pessoas que passavam em frente ao bar, esqueci minha vida, esqueci tudo. Então, sem mais demora, a beijei.
Um, dois, três, quatro... Perdi a conta depois do décimo beijo. Perdi a conta das horas. Perdi a noção.
— Preciso confessar uma coisa — Alice disse, afastando-se com um sorriso nos lábios. Tentei puxá-la novamente para perto e fazê-la não falar nada, mas ela riu, selou meus lábios e continuou. — Eu quis fazer isso desde a primeira vez que vi você — sussurrou, beijando-me agora.
Afastei-me, encarei-a fixamente e deslizei meus dedos por sua face.
— Infelizmente, eu também...
E o estrago estava feito... Porra.
Alice abaixou o olhar e ficou calada. Arrependi-me no mesmo instante por ter usado aquele termo, mas, apesar de tudo, eu estava sendo sincera... Quis beijá-la sim, porém aquela não era a coisa certa a ser feita e muito menos a ser admitida.
— “Infelizmente...” — ela sussurrou.
— Ei... — entortei os lábios e a puxei para perto de mim. — Para, meu... Para! Desculpa. Eu não queria estragar o momento...
Levantei seu rosto carinhosamente e ela me fitou durante poucos segundos para, em seguida, colar seus lábios aos meus e fazer das atitudes uma única palavra.
Às vezes, palavras só servem para estragar momentos especiais. Não é necessário nada além de uma pequena atitude para se mostrar tamanho sentimento. Basta fazê-lo.
Depois de muito, muito tempo — não sei bem quanto —, fui obrigada a cortar totalmente o clima e propor a volta para o apartamento.
Ela me olhou com os lábios entortados e nada disse. Selei seus lábios rapidamente e levantamos ainda tontas para pagar a conta.
Durante o caminho, fomos cada uma em seu canto. Não conversamos. De vez em quando, nos entreolhávamos e abríamos um pequeno sorriso. Meu olhar pesava sobre seus dedos e diversas vezes senti uma vontade quase incontrolável de entrelaçar os meus aos dela, mas não o fiz... A bolha invisível na qual havíamos nos escondido quando estávamos no bar havia estourado. Por mais que continuássemos no mesmo clima, havia muita gente na rua...
Claro... São Paulo.
Quando chegamos ao aparamento, ela pegou sua bolsa, deu um beijo rápido em meu rosto e então, sem dizer nada, se foi. Minha vontade era de puxá-la e ali beijá-la; porém, eu já havia errado demais naquela noite. Mas, afinal, era errado por quê?
Por que as pessoas têm essa ideia idiota de que pertencemos a alguém? Ninguém pertence a ninguém. Há uma grande diferença entre pertencer e não querer estar com outra pessoa. No caso, eu tinha um compromisso de possessão com a Marina, e isso era o que eu não conseguia aceitar. Apesar de amá-la (amava mesmo?), não era o bastante para mim. Se fosse, eu não teria me interessado pela Alice. Se bem que, antes de ela aparecer, era o bastante (ou não era?).
Tomei a última lata de cerveja que estava no congelador e fui tomar banho. Enquanto a água batia em meu rosto, eu me lembrava dos beijos ímpares que eu acabara de ganhar. Por que aquilo estava me deixando tão desconcertada? Eu, apesar de tudo, era uma pessoa que não concordava com traições. Apesar de achar que as pessoas não pertencem umas às outras, tem a questão do respeito. Se eu e Marina havíamos selado um contrato de nunca ficarmos com mais ninguém, eu não tinha o direito de quebrá-lo. Porém, saiu do meu controle. Fugiu das minhas mãos. Bateu forte aqui dentro e eu não soube fazer parar.
Vesti uma calcinha e me enfiei na cama ao lado dela. Envolvi meu braço em sua cintura e fiquei assim, com seu corpo colado ao meu. Seu cheiro era bom. Cheiro de flores. Tão ela...
Demorei um pouco a dormir por estar perdida num emaranhado de sentimentos. Meus pensamentos se alternavam entre o beijo de poucos minutos atrás e o calor de Marina. Era tão errado sentir aquela vontade incontrolável de ter Alice em meus braços e, ao mesmo tempo, não querer ficar longe do meu grande amor? Tão errado enganá-la?
Eu não estou enganando ninguém. Foi só um beijo, porra.
Cigarettes, coffee and you. [parte 3]
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