Cigarettes, coffee and you. [parte 5]


Às 17h, saí apressada e desesperada da casa da Alice. Retornei à realidade — contra minha vontade — e me dei conta de que a Marina já poderia estar no apartamento me esperando.

Quando cheguei à frente da porta do apartamento, o relógio marcava 17h55. Girei as chaves devagar, com receio do que poderia acontecer, e parece que meus pensamentos tiveram poder. Ao entrar, dei de cara com a Marina sentada no sofá assistindo tevê.
Ela olhou para trás ao ouvir a porta bater.

— Onde você tava? — perguntou.

Sua cara não demonstrava raiva nem desconfiança. Era apenas uma pergunta. Mas, mesmo assim, meu estômago se revirou.

— Eu... — parei por um segundo, sem saber o que responder. — Fui comprar cigarros — falei rápido.

Ela sorriu para mim e me chamou para sentar ao seu lado. Dirigi-me devagar até lá, mais relaxada por não ter sido interrogada por nada, e sentei. Marina se aninhou em meu corpo e então ficamos assim por algumas horas. Era incrível, mas eu ainda podia sentir o perfume da Alice ali.

— Amor — ela sussurrou, aproximando seus lábios de meu ouvido —, passei o dia inteiro pensando em você.

Puta que pariu, hoje é segunda-feira... Não, meu, pelo amor de Deus. Eu acabei de voltar da casa da Alice... É sacanagem demais.

— Meu amor — sussurrei, desvencilhando-me devagar —, eu estou cansada...

Ela arqueou uma sobrancelha e sentou de frente para mim, com as pernas cruzadas em cima do sofá.

— O que aconteceu?
— Só estou cansada... — entortei os lábios.
— Ah, larga de besteira, Anna...

Seus lábios se dirigiram ao meu pescoço e deixaram-me completamente arrepiada. Também era errado fazer isso com aquela que estava comigo? Era errado passar a noite com minha mulher?

Alice..., minha consciência restante gritou, mas não foi o necessário para parar aquilo.
Mais alguns toques maliciosos da Marina e eu já a tinha em meus braços com suas pernas entrelaçadas à minha cintura, beijando vorazmente meus lábios.
Peças jogadas uma a uma pelo chão. Não conseguimos chegar à cama. O chão nos fora suficiente para terminar, depois de um longo tempo, aquele momento singular, como sempre era com ela.
Após longas horas intermináveis de sexo, Marina deitou em meu ombro e ficou passando seus dedos por cima de minha barriga.

— Eu estava sentindo sua falta — disse baixinho.
— Eu também estava, amor — respondi sincera.

A Marina, por mais diferente que fosse, era minha mulher; a primeira mulher que amei de verdade em toda minha vida. E eu ainda sentia aquele amor vivo dentro de mim, por mais que as coisas não estivessem indo tão bem quanto eu queria. Seus olhos continuavam sendo os mais belos de todo o mundo, assim como eram na primeira vez que a vi.

Ela selou meus lábios e me chamou para tomar banho. Aceitei e, ao contrário do que eu pensava, não continuamos o ocorrido na sala. Foi um banho carinhoso, companheiro e doce. Era como se, enquanto ela passava sabonete em minhas costas, quisesse dizer que queria permanecer assim até o fim. Eu não tinha essa tola fantasia de amor eterno, mas não parecia uma má ideia permanecer com a Marina o máximo tempo que pudesse.

Mas e a Alice? E o meu sentimento que crescia desesperado por ela? O que eu faria agora? Iria simplesmente pegá-lo e jogá-lo no lixo? Era novo, era lindo, era relevante demais para simplesmente ser posto ao ar, sem nem ao menos vivê-lo. E era algo tão sincero e sem maldade que eu seria capaz de nunca mais tê-la, mas me contentaria apenas com seu sorriso. Já era o bastante.

Porém, tinha a Marina... Ela era minha. Com certeza era minha. E eu também a amava. Além do que, nós éramos felizes; apesar dos vários problemas e descontentamentos, eu era muito feliz ao seu lado.

Após enfiarmos calcinhas e camisas maiores que nós duas juntas, deitamos agarradas na cama e adormecemos.

O resto da semana não demorou muito a passar. Depois daquela noite com a Marina e daquelas poucas palavras que trocamos, as coisas haviam melhorado um pouco. Ela estava mais carinhosa comigo e até conseguíamos conversar mais. Porém, também recebi algumas mensagens da Alice. Não ia muito além do “Saudade, meu. Quando vou ver vc?” ou “Queria que vc estivesse aqui agora”. Meu coração acelerava ao ler aquelas palavras. Todas as vezes. Era sempre na hora do trabalho, claro. Elas me desconcentravam e não conseguia mais completar os textos que estava fazendo.
Mas aí eu chegava ao apartamento e encontrava a Marina, sorrindo, com algo entre as mãos para mim — ou café, ou cookies, que ela sabia que eu adorava, ou até mesmo cigarro, e eu ficava desarmada, desconsertada e todos esses outros “des” que podem existir com o mesmo sentido.


— Eu te amo — ela me disse na sexta, antes de pegarmos no sono, com sua mão entrelaçada à minha, fazendo-me ficar com os olhos marejados de culpa, tristeza, consciência pesada e confusão.

Não consegui responder, mas não foi por falta de sentimento e sim por não saber como dizer; por não saber o que fazer.


Eu espero que você não se importe...

Sábado fomos jantar em um restaurante bem elegante. Conversamos durante alguns momentos sobre assuntos avulsos. Foi bem agradável.
O domingo passou preguiçoso como todos os outros. Nada bom para se fazer. Filmes, café, cigarros e biscoitos.

Segunda-feira, vulgo dia-de-Alice. Frio na barriga. Dia de tomar pílulas de esquecimento para não me lembrar da Marina e deixar-me viver daquela paixão proibida que me trazia inquietação e alegria.
Cinco horas seguidas de trabalho. Após uma mensagem recebida dizendo “Vc vem hj, ñ vem?” e várias fugas para fumar um cigarro ou outro, saí quinze minutos mais cedo por não aguentar a ansiedade (de novo).
Quando cheguei lá, Alice disse que me levaria à sua casa novamente, mas que era apenas para conversarmos sem barulho ou gente intrometida. Porém, contrariamente ao que ela havia dito, passamos duas horas quebrando as regras. Sexo, sexo, sexo e mais sexo. Entretanto, depois de muito tempo, ela resolveu cumprir o combinado.

— Quero falar com você — disse, sentando-se de frente para mim, encarando-me sem rir.

Precisa mesmo? Sinto que não é coisa boa. Puta merda.

— Sobre o quê?
— Nós duas.
— Hm...
— Você sabe que eu gosto de deixar as coisas bem claras, não sabe? — perguntou e eu assenti. — Então... Você também sabe que me apeguei bastante, não? — assenti novamente e ela continuou. — Pois é, aumentou. Aumentou muito. Sem querer. E eu não estou conseguindo controlar. Saiu do meu governo. Fugiu. Não consegui mais pegar.
— Meu, por que você tá falando isso agora? — disse, interrompendo-a. — Você sabe que eu sinto o mesmo. Qual é o ponto principal? 

— É o seguinte... Quando eu digo “aumentou”, não é no sentido figurado. Aumentou consideravelmente, a ponto de me fazer sofrer, de me deixar com ciúmes por saber que você vai sair daqui e voltar para a sua casa. Eu não gosto de me sentir assim. Não consigo mais me concentrar no trabalho e até perco a vontade de ir às festas para ser DJ, pois sei que você não vai estar lá. Sinto vontade de chorar por saber que você pode estar com a sua mulher enquanto eu estou fazendo qualquer outra coisa sem sentido. E, me perdoa, mas eu não posso mais continuar com isso.

Arregalei os olhos sem entender. Como assim?

— Por que isso agora, meu? Como você tem coragem de falar isso, Alice? Porra, você fala como se fosse a única que se apegou da história. Fala como se fosse a única a sentir falta e a única a sofrer por isso. Não é só você, meu. Não é! — elevei o tom. — Eu nunca tive dúvida alguma do meu relacionamento com a Marina, mas aí você apareceu e eu simplesmente me perdi.
— A Marina... Marina... — ela suspirou. — A Marina é minha amiga, mano. Eu não sei como pude fazer isso. Eu não sei como me deixei sentir tudo isso.
— Sua amiga? É, legal... Ela é minha mulher, Alice. Minha mulher! — quase gritei. — E eu a amava. Amo, sei lá. Eu não sei mais de nada. Você conseguiu virar tudo de cabeça para baixo.
— Eu? Agora a culpa é minha? — ela gritou.
— Não. A culpa é nossa! Nossa.

De repente, um silêncio infinito se brotou na sala e nossos olhares se desencontraram. Dois, três, quatro minutos se passaram. Nenhuma palavra. Só o som da nossa respiração.

— Você quer parar? — perguntei baixo, fitando finalmente seus olhos.
— Eu quero você, Anna — ela sussurrou.
— Meu, você não acabou de dizer que não quer continuar?
— Não quero continuar com essa história toda, mano. Eu quero você só pra mim. Eu quero ficar com você. Eu quero viver com você. Não quero dividi-la. Não quero que você seja de outra pessoa.

Não, meu... Isso não...

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