— O que aconteceu? — perguntei soltando um riso baixo sem entender o porquê.
— Sabe aquela agência de viagens que tem aqui perto? Pois é, eu falei pra você ontem que estava louca pra viajar. Fui ver os pacotes de viagem, daí o ônibus não chegava e a chuva estava forte demais, então pensei em passar aqui e esperar parar um pouco.
— Nossa, você é bem impulsiva... — sorri enquanto abria a porta e a deixava entrar na minha frente.
— É, sou mesmo — ela disse entortando os lábios.
Peguei duas toalhas e dei uma a ela.
— Quer café? — perguntei.
Ela sorriu e assentiu.
— Cadê a Marina?
— Trabalho... Até tarde.
— Você não trabalha?
— Sim, mas segunda-feira eu só fico até o meio-dia.
— Hm... E você não se importa de eu esperar a chuva passar, se importa?
Neguei com a cabeça e me dirigi até a cozinha. Ficamos em silêncio enquanto eu preparava o café. Ela estava absorta no sofá, olhando para a tevê que acabara de ligar. Eu a encarava hora ou outra para reparar seu belo corpo.
— Quer com ou sem açúcar?
— Sem.
Coloquei em duas xícaras e levei até ela. Sentei ao seu lado, com os pés no sofá. Meus olhos não sabiam se viravam para a tevê ou para ela, incrivelmente linda e molhada, ao meu lado. Olhei para a sua tatuagem, agora podendo prestar mais atenção. A blusa só me permitia ver a metade, mas era o necessário para entender. Era uma gaiola aberta com três pássaros pequenos saindo dela. Linda. Ela e a tatuagem. Lindas.
— O que significa? — perguntei, encarando-a.
— O que significa o quê? — ela me olhou, arqueando uma sobrancelha.
— A sua tatuagem...
— Ah... Liberdade. Simples e claro. Fiz quando me descobri lésbica — ela riu. — Você tem alguma?
— Sim — respondi levantando um pouco minha camiseta para mostrar uma árvore sem folhas que ficava em cima das minhas costelas.
— E a sua, o que significa?
— Algumas pessoas se escondem embaixo das árvores para não serem atingidas por raios de sol. Eu queria fazer algo que significasse a falta da proteção, pois, para mim, nada tem sentido se a pessoa não se arrisca. Eu não poderia fazer apenas o vazio, então fiz a árvore só com galhos, porque ela não é capaz de proteger ninguém contra raios de sol, então você é obrigado a enfrentá-los.
— Nossa, você pesquisou isso no Google? — ela riu.
— Pior que não. Cheguei a essa conclusão sozinha. Às vezes me sobra muito tempo pra pensar, aí dá nisso.
Alice fez uma cara como se não acreditasse na minha capacidade de pensar numa coisa dessas. Ela riu e começou a perguntar outras besteiras como quantas tatuagens eu tinha vontade de fazer e o que elas significavam para mim. Era engraçado como o assunto fluía leve, mesmo eu não gostando de falar muito.
— Pode fumar aqui? — ela perguntou, já abrindo a bolsa ainda molhada para tirar a carteira de lá.
— Na verdade, não.
Ela deu ombros e acendeu seu cigarro. Ri do seu jeito de não se importar com as regras e pedi um para ela, acendendo em seguida. Entre uma tragada e outra, não conseguia me auto-controlar. Seus lábios me chamavam de certa forma que me fazia perder o fôlego. Era massacrante.
— Qual o lugar que você tem mais vontade de conhecer? — ela perguntou, virando para mim, deixando-me nervosa por estar tão próxima de algo proibido que, sem querer, eu desejava tanto.
— Não sei... Acho que tenho vontade de ir à Inglaterra.
— Você acha? — ela riu. — Eu tenho vontade de ir lá também. Só falta conseguir o dinheiro. Esse trabalho de DJ não me proporciona muitas possibilidades de sair desse país. Se bem que não tenho tanta vontade disso. Adoro esse ar poluído e pesado de São Paulo. Só queria poder fugir de vez em quando. Respirar um pouco.
Puta que pariu, essas palavras são minhas...
— Você é DJ?
— Na verdade, sou gerente de uma cafeteria, mas, como também sou DJ, prefiro colocar essa profissão em primeiro lugar. Sei lá. Eu gosto de sentir que estou fazendo as pessoas se libertarem; voarem.
Caralho.
— É... Minha profissão também é muito empolgante... — ironizei. — Passo horas escrevendo matérias sobre um assalto que aconteceu ou sobre a chuva forte que caiu. Mas, no meu caso, faço as pessoas ficarem preocupadas. Interessante, não?
Ela riu alto.
— Bastante... — disse, tragando seu cigarro.
Seu olhar pousou sobre meu corpo e aquilo me fez estremecer. Não que eu não fosse acostumada com o olhar de mulheres sobre mim, mas eu geralmente não as desejava, então isso pouco importava. O mais intrigante foi perceber algo além de curiosidade em seu exame; enxerguei a mesma vontade que havia em meus olhos.
O silêncio pairou naquela sala e apenas nos entreolhávamos cheias de segredos, dúvidas, desejos. Sei que só posso falar por mim, mas eu podia ver que havia isso nela também... Ou então alguém havia colocado álcool no meu café e eu estava começando a ficar louca além da conta.
Minha vontade de me aproximar mais do que já estava era quase insuportável. O clima se alternava entre baixo e pesado. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Apenas olhares, tragadas de cigarros e goles de café.
— Combinação perfeita, não é? — ela abriu um sorriso.
— Que combinação? — fiz-me de desentendida.
— Café, cigarros...
Você, pensei.
— Melhor, impossível — respondi.
Nós rimos e Alice começou a falar sobre como começou sua paixão por café e o quão perfeito é seu trabalho na cafeteria. Conversamos durante horas seguidas e de vez em quando meu corpo latejava de vontade de seus lábios novamente, mas eu sempre arranjava forças de algum lugar para me controlar. Sem álcool, sem loucuras, pensei. Ainda bem.
Depois de muito tempo, não ouvíamos mais o som da chuva forte caindo. Por um momento, tive receio de que a Marina chegasse e desse de cara com aquela cena; eu e Alice fumando na sua sala com cheiro de flores do campo. Mas o real problema nem era o cigarro e sim a Alice. Dã, ela não tem como ler em seus olhos a sua vontade, pensava comigo mesma. Ainda assim, o medo tomou conta e eu esperei realmente que ela não demorasse mais ali, apesar de não querer vê-la indo embora hora alguma. O assunto era tão bom, seu sorriso era tão gostoso de ouvir... E seus lábios ainda estavam gritando meu nome.
— A chuva parou — disse ela.
— É...
Droga. Ainda bem. Droga. Ainda bem. Droga. Ainda bem. (Alternância infinita de sentimentos.)
— Acho que já vou.
— Fui muito inconveniente? — perguntou ela, com uma mão em sua nuca, antes de ir em direção ao elevador.
Tirando a loucura eminente que você causou em mim nesta tarde, foi perfeito ficar algumas horas conversando com você.
Abri um meio sorriso e neguei com a cabeça.
— Foi bom ter companhia...
— Hm... — murmurou. — Tchau.
Ela sorriu e se virou, deixando-me perdida em intermináveis desejos reprimidos. Fechei a porta e fui arrumar a casa. Tirei o doce cheiro de café misturado com cigarro e com o delicado perfume da Alice, substituindo por bom-ar de flores do campo. Merda.
Coloquei as xícaras de café na cozinha e fui assistir tevê, mas minha mente não me deixava prestar atenção no programa chato que estava passando. Minhas lembranças me prendiam à tarde ao lado da Alice. Porra, para! Você é casada, pensei. Senti vontade de me socar por estar com aqueles pensamentos inapropriados. A Marina é minha mulher... É nela que eu tenho que pensar. Inútil. Não conseguia.
— Nossa, amor, o trabalho me deixou com uma dor de cabeça insuportável — disse ela. — Como foi seu dia?
Engoli seco. Pensei em esconder o acontecido da tarde, mas a Alice poderia comentar depois, então ela desconfiaria. Eu precisava colocar em minha cabeça que a Marina não tinha o poder de ler minha mente...
— Chato... — hesitei. — A Alice passou aqui mais cedo.
Ela me olhou confusa. O medo invadiu.
— Foi? O que aconteceu? — perguntou arqueando uma sobrancelha.
— Chuva... Ela estava aqui perto, então veio procurar abrigo... E você.
— Nossa — ela riu, sentando ao meu lado.
Relaxei um pouco. Comecei a falar sobre outro assunto. Perguntei como havia sido seu dia e então fiquei alguns minutos ouvindo coisas chatas. Fomos comer, ainda conversando assuntos que não me interessavam, e depois deitar. Friso o “deitar” para depois explicar que dormir não era algo que fazíamos segunda-feira. Até isso fazia parte da rotina. Geralmente, Marina chegava cansada e carente do trabalho, me chamava para a cama e ficávamos abraçadas até sua mão mal-intencionada passar pelo meu corpo e então começarmos tudo.
Aquela noite não fora diferente das outras. Comida, descanso, sexo, poucas horas de sono. É, eu ainda gostava bastante de segundas-feiras.
O resto da semana passou rápido. Nada de interessante. Dias chatos e cansativos. Nenhuma notícia da Alice e eu, de certa forma, agradecia por isso.
O sábado chegou. Eu e Marina estávamos almoçando na cozinha, decidindo o que fazer à noite.
— Quer ir à balada? — perguntei.
— Não estou muito a fim de dançar, amor.
— Bar?
— Movimento... Também não quero.
— O que você quer?
— Ah, não sei... Minha semana foi muito cansativa. Por que não ficamos em casa?
Porra, eu passei a semana inteira em casa. Não aguento mais ficar trancada aqui.
— Meu, eu não quero passar a noite sem fazer nada — reclamei.
— Por que você não chama alguma amiga sua pra cá? Chama aquela Isabela, a sua amiga lá do trabalho. Compra bebida e fica aqui — ela disse sem se importar com meu descontentamento.
— Nos desentendemos no trabalho. O clima entre nós duas está meio pesado.
— Hmmm... — murmurou. — Eu posso chamar a Alice. Vocês duas estão se dando melhor, não? Eu vi que estavam conversando aquele dia no restaurante — ela disse, deixando-me assustada. — E com certeza devem ter trocado pelo menos duas palavras no dia que ela veio para cá por causa da chuva.
Puta merda. Será que ela sabe?, pensei. Mas sabe de quê? Não tem nada pra saber, sua burra!
Levantei para pegar água na geladeira enquanto elas duas conversavam no telefone. Quando sentei novamente, a Marina já estava desligando com um sorriso grudado no rosto.
— E aí? — perguntei.
— Ela vem. Disse que chega às 21h.
Contive um sorriso. Continuamos almoçando sem nada dizer. Eu e Marina não tínhamos muito o que falar; nossos assuntos eram bem diferentes.
O resto da tarde passou extremamente devagar. Olhava para o relógio de meia em meia hora e ficava agoniada por parecer que os ponteiros não se moviam. Duas horas, três horas, quatro horas, cinco horas... Nada para fazer. Nada para falar. Nada para me fazer rir.
Marina estava deitada no quarto, tentando recuperar o sono perdido da semana, e eu estava na sala, lendo um livro.
Pouco tempo depois, cansei daquelas palavras e resolvi descer para fumar um pouco — já que a Marina me mataria caso me olhasse fazendo aquilo ali. Peguei o casaco que estava em cima da mesa e fui.
Lá embaixo, encostei-me na parede em frente ao prédio e acendi meu cigarro. Estava frio. O movimento, mesmo sendo sábado à tarde, era grande. Vi passar uma garota com cabelos que me lembravam o da Alice. Lembrei dos seus olhos... Dos seus lábios... Do seu corpo. Merda. Que porra de atração é essa?
Quando o cigarro acabou, subi desanimada para casa. Mais três horas de espera. Mais três horas sem nada para fazer. Mais três horas sem ninguém para conversar. Mais três horas de puro tédio. Argh.






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