— Eu não queria colocar você nesta situação, mas, Anna, cheguei ao meu limite quando me vi chorando na segunda-feira passada, na hora que você foi embora do meu apartamento. Eu me sinto muito mal por estar jogando em suas mãos a escolha da minha felicidade e da felicidade da Marina, até porque a felicidade dela me deixa feliz, entretanto às vezes precisamos ser um pouco egoístas. Eu não posso pensar nela para depois pensar em mim, entende? Eu não me vejo mais sem você, mas, amor, assim não dá pra ficar. Eu não sou masoquista — sua voz falhou na última frase e seu rosto molhou. — Você não seria capaz de fazer isso, não é? — ela perguntou enquanto encarava o chão.
Não consegui responder. Eu poderia dizer que não seria capaz, pois essa era a verdade, mas ver a Alice magoada era demais para mim. Aquele sorriso estava sendo o único motivo do meu naqueles dias. Era ele que havia me trazido vida novamente. Era aquele sorriso... O sorriso dela. E eu o queria perto de mim. Queria para poder abrir o meu também, e sem ele não era a mesma coisa; não havia a mesma sinceridade. Porra!
— Então eu acho melhor pararmos com isso, Anna.
— Meu, não faz isso... — pedi, vacilando por um instante e deixando uma lágrima derramar.
Não faz isso, porra. Não chora!
— Você quer que eu faça o que? Diz, mano. Diz! Eu não consigo mais fazer nada além de pensar em você. Tá acabando comigo, Anna. Acabando.
— Mas eu... — parei. — Eu me apaixonei, meu. É como se eu estivesse perdida. Sabe quantas vezes me senti assim em toda minha vida? Você sabe? Duas. Na minha vida inteira, em todos esses anos, eu só me senti assim pela Marina e por você. Simplesmente não sei o que fazer. Não sei pra que lado ir. Eu poderia dizer que é escolher entre o certo e o duvidoso, mas você é tão certa para mim... Tão... — parei sem conseguir completar a frase.
— Eu não vou correr o risco de ser deixada a qualquer momento. Não vou deixar isso aumentar mais ainda. Se for pra esquecer, que seja agora.
— Eu não vou deixar você, Alice.
— Vai sim. Você não vai vir para a minha casa, passar a tarde inteira transando com quem você quer e depois voltar pra sua mulher. Não quero ter você durante a tarde inteira para depois ficar sozinha, dormir sozinha, acordar sozinha, estar sozinha sabendo que a mulher que eu quero para mim está com outra pessoa. Está dormindo e acordando nos braços de outra. Não vou fazer isso — fitou meus olhos. — Como você quer que eu me sinta?
Fiquei sem resposta. Vi algumas lágrimas descendo pelo seu rosto e senti meu coração parar. Ela limpou seus olhos devagar, levantou do sofá e se direcionou até a porta, abrindo-a enquanto encarava o chão. Era hora de ir... Ir e deixá-la ali novamente; sozinha.
Seu sorriso se perdeu e eu não o achei mais. Junto com o dela, o meu se foi.
E eu não sabia quando iria voltar...
Voltei para a casa absorta em pensamentos. Eu estava triste, queria chorar e arrancar tudo aquilo do meu corpo. Queria tirar a necessidade de Marina. Queria tirar a vontade de Alice.
O resto da tarde quase não passou. Os ponteiros pareciam não girar nunca. As lágrimas estavam presas; não desciam. Se caíssem, seria por mim. Eu sabia que daquela forma eu acabaria perdendo as duas, pois não conseguiria manter minha relação com a Marina normal com uma saudade infinita da Alice, assim como eu não poderia largar tudo e ir atrás dela, deixando a Marina ficar sozinha depois de tudo. Ela estava comigo há tanto tempo, me ajudou a superar tantos problemas, esteve ao meu lado nos piores e nos melhores momentos. Seria até egoísmo da minha parte. Eu também precisava pensar nela. Mas nem era por obrigação. Eu a queria também. Ainda a amava.
Às 18h, Marina chegou e veio ao quarto perguntar por que eu estava deitada naquela hora da noite com tudo fechado.
— Dor de cabeça — respondi baixo.
— Já tomou remédio, amor?
Ela se aproximou de mim e passou seus dedos devagar pela minha face.
— Sim — menti.
— Vou tomar banho e já volto pra cuidar de você, ok?
Selou meus lábios devagar e foi. Meu coração apertou e fez uma lágrima escorrer. Fraca!
Pouco tempo depois, ela vestiu uma roupa e deitou ao meu lado. Eu estava de costas, mas, num impulso, virei para envolver meus braços em seu corpo. Um nó enorme se formou na minha garganta. Lágrimas quase caíram, mas as impedi com toda a força que me restava.
Marina colocou suas mãos em meus cabelos e pôs-se a acariciá-los. O nó só aumentava. Aumentava. Aumentava. Aumentava. E explodiu.
Lágrimas desceram. Várias. Todas de uma vez. Soluços as acompanharam.
— O que aconteceu? — Marina perguntou assustada, mexendo-se na cama para encarar-me.
Não consegui falar. Enquanto ela repetia a mesma pergunta diversas vezes, eu não conseguia mais controlar. Passaram-se dois, cinco, oito, dez minutos... Ela se calou e me abraçou com a intenção de confortar-me, mas aquilo só me deixou pior. Desesperei-me. Afastei-me dela e fui até o banheiro. Ela até tentou correr atrás de mim, mas tranquei a porta logo que entrei.
— Por favor, Anna, abre isso aqui — ela pediu num tom baixo. Eu podia sentir sua preocupação e aquilo me machucava mais e mais.
Fiquei calada e então, depois de um tempo, ela também. Lavei meu rosto várias vezes. Algumas lágrimas ainda desciam, mas aos poucos fui me acalmando.
Quando parei totalmente de chorar, abri a porta com vergonha e sem saber o que dizer. Dirigi-me até a cama e ela ainda estava lá, olhando-me sem saber o que fazer ou o que perguntar.
— Não vai dizer mesmo? — seu tom ainda era baixo.
Sentei-me calada ao seu lado e assim permaneci por alguns segundos. Meu olhar se alternava entre a janela e as paredes. Às vezes até chegava a dar voltas pelo quarto, mas sempre fugindo do olhar da Marina. Eu sabia que uma hora ou outra eu teria que pelo menos inventar uma desculpa para explicar o que tinha acontecido. Qualquer história. Qualquer coisa. Mas nada me vinha à cabeça. Nada.
Após longos minutos, enquanto sentia seu olhar queimando sobre mim, resolvi falar.
— Preciso contar uma coisa — nossos olhares se encontraram e ela não respondeu nada. Minha voz se perdeu por um instante e senti meu rosto umedecer.
Porra...
Cigarettes, coffee and you. [parte 6]
18:26 |
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