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Cigarettes, coffee and you. [parte 4]

No domingo, acordei tarde e encontrei a Marina assistindo tevê no sofá. Ela me perguntou como havia sido a noite passada e eu apenas disse que passamos o tempo inteiro apostando quem ganhava nos jogos aleatórios que escolhíamos. Enfim, uma noite agradável. Porém, havia sido um pouco mais agradável que o esperado — na verdade, bem mais.

Rapidamente, fiz o esforço de tirar aquelas lembranças da minha cabeça. Não faria bem pensar nelas agora, principalmente com a ideia idiota de que Marina poderia ver pelos meus olhos o que eu sentia.

No fim do dia, ela me convidou para ir ao shopping comprar sapatos. Como eu odiava fazer compras, fiz de tudo para continuar deitada na cama o resto do dia, mas, no fim, fui obrigada a enfiar uma roupa e caminhar até aquele lugar chato. Compras, compras e mais compras. Tédio total. Caras desconhecidas, lugares monótonos. Tudo chato. Voltamos para casa e não demoramos a dormir. A mesma rotina. A mesma falta de assunto. Mesmo tudo.


Na segunda, acordamos cedo para trabalhar. Vesti-me com preguiça e tomei mil xícaras de café para criar coragem e descer para enfrentar mais um dia insuportável.
Eu estava fazendo uma matéria sobre a baixa umidade de São Paulo quando meu chefe chegou com um envelope roxo para me entregar. Olhei para ele sem entender e o vi virar as costas, calado. Arqueei uma sobrancelha e o abri. Dentro havia uma folha branca com palavras escritas com caneta preta.

"Meu, eu sei que é loucura isso, mas não aguentei. Eu mandaria uma mensagem para o seu celular se soubesse o número. Ainda bem que você me disse que trabalhava perto da estação Vergueiro. Não foi muito difícil achar um jornal perto daí. Era o único.
Você sai do trabalho cedo hoje, não é? Falei onde é a cafeteria que trabalho? Fica perto da estação Brigadeiro. Imagino que você vá inventar alguma desculpa, pois acho que se arrependeu do que aconteceu no sábado, mas espero realmente que você aceite o convite.
Como não tenho planos pro almoço hoje, pensei em convidar você pra fazer algo. Podemos almoçar juntas ou sei lá. Por que você não passa aqui quando acabar seu expediente? Eu queria muito conversar com você.
Nada de importante. Na verdade, eu só queria te ver.

Enfim, é isso. Qualquer coisa, me liga. O número do meu celular está no verso da folha.

PS: queria lhe dizer que, mesmo sendo amiga da Marina, não consigo me arrepender do que fizemos.

Alice."





Senti meu coração mudar de ritmo. Ansiedade, preocupação, medo, felicidade... Tudo se misturou. Mano, o que eu faço? Puta merda.

Perdi completamente o foco do texto que estava fazendo. Salvei o que já estava escrito e desci por cinco minutos para buscar calma com ajuda do meu refúgio: cigarro.

Entre uma tragada e outra, desesperava-me sem saber se deveria ou não aceitar seu convite. O rosto sincero da Marina me vinha à cabeça e minha coragem se esvaia. No mesmo instante, lembrava do perfeito sorriso da Alice. Caralho, eu estou fodida. Completamente fodida.

Quando o cigarro acabou, subi para terminar meu trabalho. Após o segundo texto ser completado, olhei para o relógio e percebi que meus minutos para decidir estavam acabando.

“Enfrentar os raios de sol”, pensei. Foda-se. O bom está aí para ser experimentado.

Enfiei as chaves de casa e meu celular no bolso da calça e fui para o metrô, direto à Estação Brigadeiro. Meus lábios estavam vermelhos de tanto serem mordidos por causa da ansiedade e do medo. Em menos de meia hora depois, eu estava entrando na cafeteria. Após colocar meus pés dentro daquele lugar, avistei a Alice distraída perto da maquina de café.

— Oi — falei ao chegar perto dela.
— Você veio — ela exclamou, sorrindo ao me ver.
— Não... Ainda estou lá. Sou a alma da Anna aqui — brinquei.
— Grossa! — ela reclamou, empurrando-me devagar.

Ela estava tão linda. Seus cabelos estavam presos e seus olhos estavam bem maquiados para o dia, mas nada absurdo. E seu corpo... Ah, seu corpo...

— Onde você quer almoçar? — ela perguntou.
— Não sei. Tanto faz.
— Nossa, que mulher sem opinião...
— Sem opinião o caralho, meu — eu ri. — Você que me convidou. Não tive nem tempo pra pensar nisso.
— É, eu tive... Mas fiquei com receio de escolher algo que você não gostasse.
— Não sou fresca com isso. Gosto de tudo.
— Gosta de comida japonesa?
— É, não — ri alto da minha contradição.
— Então pronto — ela riu.
— Gosta de carne?
— Até demais.
— Quer ir a uma churrascaria? Conheço uma muito boa aqui perto. É meio cara, mas vale à pena.
— Ah, meu, dinheiro é pra se gastar. Foda-se. Vamos.

Ela sorriu, pegou sua bolsa que estava atrás do balcão, avisou à garota do caixa que estava saindo e então fomos. Não houve necessidade de pegar metrô ou ônibus, pois a churrascaria era mesmo bem próxima dali. Sentamos numa mesa distante e fizemos nosso pedido.

— Pensei que você não ia aceitar meu convite — ela disse, ajeitando-se na cadeira. — De qualquer forma, ainda bem que veio.

Abri um sorriso verdadeiro e então começamos a conversar sobre assuntos aleatórios que nos vinham à cabeça.

— Vai, vamos fazer um acordo então... Eu conto pra você a minha história mais constrangedora e depois você me conta a sua, ok? — ela propôs, após eu recusar, pela décima vez, falar sobre tais assuntos.
— Argh. Você é muito chata, meu — eu ri e assenti, aceitando finalmente.
— Hmmm, me deixa pensar... — ela parou por um momento — Aos doze anos eu estava em casa com minha primeira namoradinha e a Maria, que trabalhava na minha casa naquela época, nos encontrou peladas em cima da cama. Nesse tempo, nós nem fazíamos coisas sérias, mas tem sempre aquelas brincadeirinhas infantis sem maldade, né — ela disse rindo.
— Doze anos, meu?
— É... — seu rosto ruborizou, mas ela ainda continuava com aquele sorriso lindo nos lábios.
— Ah, mas essa história nem é tão constrangedora...
— O que você queria? Que me encontrassem com a cara no meio das pernas da guria, meu? — ela revirou os olhos e riu em seguida. — O pior é que já encontraram...
— COM DOZE ANOS? — arregalei meus olhos.
— NÃO, MANO — ela riu. — Minha ex me encontrou com outra ex, sendo que isso foi uma noite depois de ter dormido com ela, ou seja... Enfim, foi uma merda.
— Falou a senhorita cheia de ex-namoradas...
— Cala a boca, meu.
— Nossa, você é muito má. Coitada da guria que se iludiu com esse rosto bonito...
— Não sou má, idiota... Eu só estava um pouco alta por causa do álcool... E às vezes parece que algo incorpora no meu corpo, porque vou te contar...
— Ah, então quer dizer que o que aconteceu no sábado foi por causa do álcool? — falei como se fosse brincadeira.
— Mano, claro que não — ela riu. — Eu estava bêbada, mas já falei... Eu queria fazer isso desde aquele almoço no domingo. O álcool só me deu coragem — falou sincera.


Meu coração acelerou de uma forma idiota e eu tive vontade de me socar por isso.

— Você se arrependeu? — ela perguntou baixo, olhando-me receosa.

Mordi meu lábio inferior e me arrependi de ter tocado naquele assunto.

— Anna, não precisa responder se não quiser — pausou por um minuto, ainda esperando uma resposta — Sabe, ouvi dizer que a sobremesa daqui é muito boa... — tentou fugir do assunto.
— Acho que não — respondi.
— Como não? Todos que já vieram aqui dizem isso, mano.
— Não isso, meu — revirei os olhos.
— Hã?
— Sua lerda. Acho que não me arrependi— pausei. — Na verdade, eu não me arrependi — abaixei a cabeça, criando coragem para dizer mais coisas — Mas não acho que essa foi exatamente a coisa mais legal a se fazer, entende?

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Quer mudar de assunto? — ela perguntou.
— Não me importo de falar disso — respondi sincera. — Só que não sou acostumada a comentar muito sobre meus sentimentos.
— Rá, pois trate de se acostumar. Eu gosto de sempre deixar as coisas bem claras — disse com um sorriso lindo no rosto.
— Você vai ter muito trabalho em arrancar “as coisas” de mim — sorri.
— Ou não, hein... Nada que uma lingerie bonita não resolva — ela riu alto. — Brincadeira... — seu rosto ruborizou então ela mudou de assunto. — Enfim, meu, você não contou sua história constrangedora. Vai, conta. Eu já contei a minha.

Comecei a falar sobre minha adolescência e coisas bem desconcertantes que aconteceram na minha vida. A comida chegou e passamos horas ali, mesmo depois de comermos até a sobremesa, ainda descrevendo histórias e rindo uma da cara da outra. Era tão bom conversar com ela.
Depois de bastante tempo, olhei receosa para o relógio e ele já marcava 15h30. Ainda ficamos alguns minutos enrolando e acabamos nos despedindo às 16h. Dei um beijo rápido em seu rosto, controlando-me para não fazer mais nada ali, e então fui embora com um sorriso enorme nos lábios. Olhei para trás e ainda a enxerguei. Ela sorria. Sorria para mim.

Dessa vez, não contei à Marina o que havia feito durante o dia. Apesar de não termos falado sobre isso, eu e Alice fizemos um pacto silencioso de segredo mútuo. Com os dias, fui me acostumando a pensar nela sem temer a descoberta da Marina. Minhas memórias e imaginações voavam em volta disso. Às vezes, eu dava por mim e tentava parar. Marina, eu lembrava, mas logo aquele sorriso aparecia de novo na minha mente.

Eu havia dado à Alice o número do meu celular, mas mesmo assim não conversamos durante o resto daquela semana; porém, isso só me custou mais horas tentando imaginar o que ela estava fazendo e me lembrando de tudo.

No fim de semana, eu e Marina saímos para um bar qualquer, mas não demoramos muito tempo. Pela falta de assunto, logo ela se cansou e inventou uma dor qualquer para voltar.

Segunda-feira. Diferente de todas as outras, acordei ansiosa esperando algum convite ou, caso contrário, dessa vez eu mesma convidaria. Fui para o trabalho com uma felicidade eminente estampada no rosto. Até às 10h, nenhuma notícia. Resolvi, então, agir.

“Vc quer almoçar hj?”, digitei e enviei a mensagem.

Um minuto. Dois minutos. Três, quatro, cinco... Nada de resposta. Ao décimo, eu já estava com a carteira de cigarros na mão, prestes a descer para fumar e me acalmar um pouco, quando Alice finalmente respondeu.

“Q horas e q lugar?”

Simples. Prático. Direto.
Sorri feliz e satisfeita por conseguir o que queria e respondi que passaria lá para levá-la.

Fui buscá-la ao meio-dia. Alice já estava na porta me esperando. Levei-a ao restaurante de massas que ela vivia comentando. Não que fosse um grande presente, mas eu guardava tudo que Alice dizia em minha memória, então resolvi fazer algo que a agradasse.

Como o esperado, conversamos durante horas e quase não conseguimos nos despedir. Novamente, sem beijo, mas nossas mãos já trocavam carícias durante conversas avulsas, o que me acarretava constantes arrepios por todo meu corpo e fortes batidas do meu coração filho da puta.

— Ei — ela disse, antes de ir para um caminho diferente do meu.
— Oi — falei, aproximando-me.
— Próxima segunda você irá almoçar comigo, certo? — perguntou e eu assenti. — Então... Hm... Essa vai ser a minha vez de fazer a surpresa.
— Encontro você aqui?
— Sim.
— Mesma hora?

Ela assentiu, sorriu e virou-se para ir embora.

Uma semana? É muito tempo. Puta que pariu.

E foi assim. Uma hora se tornou três. Doze horas se tornaram um dia. Dois dias se tornaram cinco. Seis dias se tornaram um mês.
168 horas de Alice. Na verdade, 168 horas que eu passei pensando nela. Se dividir por três e tirar um terço, que era o equivalente às horas de sono que eu tinha por dia, se torna apenas 58 horas. Porém, sonhei com ela em algumas noites — as que eu me lembro. Em alguns sonhos, ela apenas passava sorrindo para mim. Em outros, meus desejos reprimidos tomavam conta e eu já estava no banheiro mais próximo, trancada com ela, realizando meu desejo de tê-la. Tê-la completamente. Tê-la só para mim.

Finalmente, sete dias se passaram. Sete monótonos e cansativos dias. Algo arranhava meu peito por dentro. Saudade, talvez. E por quê? Por que isso?
Acordei cedo para arrumar-me da melhor forma possível. Estava frio. Calça, tênis, blusa básica, casaco e pouca maquiagem. É, não estava tão bom assim, mas eu não podia fazer melhor; caso contrário, a Marina desconfiaria... Ou não, já que ela não reparava em mim há um bom tempo, mas era preferível não arriscar.

As horas passaram devagar enquanto eu estava no trabalho. Parecia que o relógio estava ali só para me irritar. Era como se ele gritasse “Meus ponteiros não se movem, meus ponteiros não se movem, meus ponteiros não se movem”. Café resolveria. Não resolveu. Cigarros resolveriam. Não resolveram. É, não teria outro jeito a não ser esperar as horas pararem de brigar comigo. Uma hora elas teriam que parar...
E pararam. Depois de muito, muito tempo, elas pararam. Meio-dia. Hora de almoçar. Hora de vê-la. Hora de Alice.

Peguei minhas coisas que estavam em cima da mesa, enfiei no bolso da calça e corri para o café. Cheguei até mais rápido que o normal. Ela ainda estava lá dentro, atrás do balcão.

— Cedo demais? — perguntei.

Ela me olhou e sorriu.

— Hora certa.

Puxou suas coisas que estavam lá atrás com ela e deu tchau para as meninas.

— Aonde vamos? — perguntei.
— Mano, eu falei que era surpresa. Para de ser curiosa — ela brigou.
— Não sou curiosa. Só perguntei por perguntar.
— Sei... — disse rindo.

Pegamos o metrô direto para a estação Alto do Ipiranga. Eu não tinha a mínima ideia de onde iríamos.

Após sairmos da estação, andamos um pouco até pararmos em frente a um prédio de uns dez andares. Bem bonito até.

— Quem mora aqui? — perguntei.
— Tá se fazendo de burra? — ela riu. — Eu, mano.

Sétimo andar. Dois cigarros apagados no cinzeiro. Uma lata de cerveja em cima da mesa. Um livro aberto jogado no outro sofá.

Eu estava sozinha na sala, fumando, enquanto Alice estava na cozinha, preparando algo que não queria me contar o que era. Ela veio até mesa que ficava atrás do sofá, sorriu para mim quando, inutilmente, espiei curiosa para tentar descobrir o tal mistério, mas ela foi embora, deixando apenas dois pratos e os talheres ali. Após alguns minutos, Alice sentou à mesa e me chamou.

— Filé à parmegiana. Gosta? — perguntou, sorrindo para mim.

Adoro, mas, na verdade, pouco me importa a comida agora. Estou mais interessada em você. Mais interessada na sua companhia. Mais interessada no seu corpo. E que corpo...

— Muito — sorri.

Durante o almoço, eu a observava enquanto ela contava sobre seus sonhos de quando era criança. Porém, diferente de todo mundo, Alice sonhava em casar de véu e grinalda com uma mulher — um sonho bem difícil para uma paulistana nata. Achei graça das suas vontades e também comentei sobre o sonho que eu tinha de achar aquele tal amor eterno. Mudei de assunto ao perceber que estava deixando-a constrangida por falar disso sabendo que eu era “casada” e, então, Marina deveria ser meu amor eterno.
E não era?

Quando o almoço terminou, Alice me ofereceu sorvete de flocos e então fomos sentar no sofá. Ela colocou um DVD de um filme qualquer e sentou ao meu lado, aninhando-se em meu corpo.
Certa hora, sujei um pouco meu dedo com sorvete e coloquei no seu rosto.

— Meu, para! — ela gritou rindo e depois pegou um pouco para sujar meu nariz.
— Ei, isso não vale! — briguei.
— O que não vale?
— Você não pode me sujar, mano. Só eu posso — sorri.
— Ah é? — ela sujou toda sua mão de sorvete e passou na minha cara.
— Meu, eu vou matar você! — levantei do sofá e joguei uma almofada na cara dela.
— Para, mano — ela gritou e veio pra cima de mim.

Peguei outra almofada, mas ela me abraçou por trás, segurando meus braços.


— O que você vai fazer agora, hm? — perguntou, rindo.

— Vou matar você na hora que me soltar — falei, parando de me mexer.
— Vai, é? — ela disse, aproximando seus lábios da minha nuca.

Meu corpo se arrepiou. Puta merda, meu. Ela não sabe onde tá se metendo...

— Maaaaaano... — soltei um riso baixo.
— O que foi? — sussurrou baixinho, perto do meu ouvido.

Sua mão esquerda soltou um de meus braços e desceu pelo meu corpo. Estremeci. Ei, sua burra, faz o que você disse que ia fazer. Para de ficar aí parada, meu inconsciente gritou. Caralho, não dá... Continuei imóvel, sem conseguir falar uma coisa sequer. Virei-me devagar e ficamos frente a frente, caladas, separadas por um centímetro de distância. Um centímetro que me deixava louca.

— Me deixa limpar isso... — ela disse baixo, sorrindo, passando a mão devagar por minha face.

Após alguns segundos, aproximei-me um pouco mais, acabando com aquele único centímetro enlouquecedor que nos separava, e então a beijei. Um beijo calmo, carinhoso e apaixonado. Puta que pariu, meu, o que essa mulher tem? O que ela tá fazendo comigo?

Meus braços a envolveram pela cintura e então desci minha boca até seu pescoço. O clima mudou de delicado para abrasador em questão de segundos. Minhas mãos entraram por debaixo da blusa dela e passearam pelas suas costas quentes. Mano, eu tô com vontade de acabar com você.

Sem demora, fui levantando meus braços, tirando sua blusa devagar, pouco a pouco, enquanto meus lábios provavam da sua pele, ombro, pescoço... Sutiã. Porra!
Minhas mãos, que ainda estavam em suas costas, fizeram o favor de abri-lo, e então tive o caminho livre. Finalmente. E aquilo, se não era, chegava bem perto do paraíso. Minhas mãos, então, mudaram de caminho. Das suas costas, passaram à frente da sua calça; mais necessariamente aos botões que estavam sendo desabotoados. Um, dois três. Outro caminho livre. Com isso, a esquerda desceu por baixo da sua calcinha, fazendo-me senti-la. E ela estava molhada. Bem molhada

Aquela mulher me deixava mais louca a cada toque, beijo, mordida e ameaça de começar o jogo de verdade.

Três, dois, um... Valendo.

Seus lábios foram descendo pelo meu corpo e sua língua passava pela minha barriga, fazendo meu corpo se arrepiar por completo... Bem lentamente. Bem cruel... Meu coração pulsava num ritmo irregular pedindo por mais. Aos poucos, Alice tirou minha calça e parou bem no lugar que tanto implorava por ela.
Eu via cores se misturando numa imagem embaçada. Espectro. A pele suava e respiração estava ofegante.

O jogo não vai acabar assim não, gata... Ah, não, não vai mesmo.


Levantei do sofá que eu estava deitada, joguei Alice lá e deitei por cima dela. Minha mão brincava entre suas coxas, provocando-a, fazendo-a implorar por mim. Meus lábios se alternaram entre sua orelha e seu pescoço. Depois, entre seus seios e seu umbigo. E, sem demorar muito, cheguei onde eu queria. E foi lá que, além de ver um arco-íris se movendo, ouvi gritos de prazer daquela mulher. Ela estava me tirando do sério. Fazendo-me enlouquecer por completo.
Cada centímetro do meu corpo gritava pelo seu. Implorava. Pedia. Chorava. Desesperava-se.

Mano, essa mulher vai acabar comigo...


Quando eu estava prestes a vencer aquela batalha, acabando com o empate, Alice virou-me para ganhar. Três, dois, um... Segundo round valendo.

Puta que pariu, meu.


Pouco tempo depois, rendi-me. Sem forças para lutar, ela venceu. Venceu lindamente, sorrindo da minha cara de derrotada sem fôlego. Alice veio para cima de mim, selou meus lábios com um sorriso malicioso no rosto e então se aninhou em meus braços.
Eu queria levantar dali e recompensá-la. Dar a ela cada segundo extasiante que havia recebido. Queria fazê-la desesperar-se. Ficar derrotada, caída no chão, assim como eu estava por ela. Apaixonada. Mas precisei de pelo menos um minuto para me recuperar. Ela havia acabado comigo. Acabado. Um a zero.

Ainda bem que sempre tem força extra em algum lugar.

— Você acha que vai ficar por isso mesmo, é? — eu ri, sentando em cima de sua barriga. — Rá, você precisa aprender um pouco mais sobre mim — falei, descendo minha mão para o lugar de onde ela não deveria ter saído há alguns minutos antes.

E então eu fiz o que precisava ser feito. Torturei-a. Brinquei com seus sentimentos naquele jogo. Um, dois, três. Fim do terceiro round. Um a um.

Após horas de completo desespero na arena deste jogo, Alice e eu ficamos deitadas uma de frente para a outra, bem coladas. Era como se não houvesse dois corpos ali; apenas um, coberto de sentimentos recém-descobertos.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Não era um silêncio que incomodava. Ao contrário. Meus dedos, hora ou outra, brincavam por sua face e nossos lábios se encontravam.

— Você se arrependeu? — ela perguntou baixo sem me encarar.

Que pergunta é essa, mano? Sério, meus gemidos pareciam falsos? Mas, além disso, meu coração... Não dava pra sentir?

— Claro que não, meu — olhei para ela sem entender.
— Desculpa estar perguntando isso — fitou meus olhos. — Eu falei que gostava de deixar tudo bem claro...
— É, eu lembro — ri. — Não, eu não me arrependi, Alice — repeti.
— Certeza? — disse receosa.
— Meu, eu adorei passar a tarde inteira com você, como adoro todas as vezes, mesmo quando só almoçamos juntas. Mesmo quando só vejo você por dois segundos. Fico feliz até quando penso em você. Só em me lembrar de você...
Eu não estava acostumada a falar sobre meus sentimentos e aquilo, de certa forma, até me incomodava, mas valia a pena. Vê-la sorrindo me trazia uma paz sem tamanho. E foi assim. Ela sorriu e me fez sorrir também, involuntariamente.

— Acho que estou ultrapassando os limites...
— Como assim? — perguntei.
— Não sei... É como se estivéssemos em uma corrida... E eu sinto que estou muito à sua frente.
— Isso é bom ou ruim?
— Eu quero dizer que estou me apegando demais, meu — ela disse, encarando-me séria.

Você está apaixonada? Porra, e não está claro que eu estou também? Meu, nós estamos fodidas. Totalmente. Completamente. Ridiculamente fodidas. E eu estou feliz por isso. Feliz por nós.

— Acrescente mais alguns passos ao lugar que você acha que estou. Após isso, acrescente mais uns cinco. É, eu estou bem aí... — sorri. — Bem ao seu lado — minhas mãos passaram por cima de seu peito esquerdo. — Bem aqui.

E então a beijei. Agora era declaradamente um beijo apaixonado. Sem riscos, sem esconderijos, sem desculpas.

Sempre fui muito controlada com meus próprios desejos, mas agora parecia que tudo havia saído do meu controle; eu o sentia escorrendo pelas minhas mãos como água. Mas, apesar disso, era bom. Era muito bom me sentir assim; me sentir viva.

Ela vai me deixar louca... Vai acabar comigo.
E, de certa forma, só naquele momento já havia acabado. Já havia me feito cair..

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Cigarettes, coffee and you. [parte 3]

Marina acordou às 19h30 e ficou comentando sobre o frio que estava fazendo. Às 20h, fui tomar banho com pouca coragem. Após isso, separei uma calça e uma blusa preta básica. Coloquei um tênis sujo que estava embaixo da cama e passei um lápis nos olhos que ficaram completamente borrados depois disso. Eu ainda não havia comprado bebida, então decidi que esperaria Alice chegar para convidá-la, já que sabia do “não” que a Marina diria, com a desculpa de estar cansada.
O relógio marcava 21h15. Eu estava inquieta andando pela casa. Não aguentava mais aquelas mesmas paredes em minha frente. Quando eu já estava decidida a sair sozinha para comprar logo as bebidas, a campainha tocou.

— Amor, atende — Marina gritou do banheiro.

Fui até a porta e a abri. Era ela. Seus cabelos castanhos estavam mais ondulados. Sua maquiagem forte a deixou mais linda que o normal. Por um momento, tive vergonha de estar daquela forma. Ela vestia um casaco escuro por cima de uma camiseta preta de uma banda qualquer. Linda.

— Oi — Alice disse sorrindo.
— Oi — sorri.

— Quer um? — perguntei, lhe oferecendo um cigarro.
— Sim — ela sorriu, pegando um da minha mão.

Acendi os dois e então fomos até o bar que ficava na esquina.

— Você gosta de cerveja? — perguntei quando chegamos lá.
— Na minha opinião, é a melhor bebida de todas. Não que eu não goste de outras. Acho que já provei de tudo e não tenho frescura com nada, mas me acostumei com o gosto da cerveja. Sério, é a melhor — falou empolgada.

Eu ri, pedindo algumas latas para a atendente.

— Você é forte? — perguntei.
— Como assim? — ela me olhou confusa.
— Bebidas... Você demora a ficar bêbada?
— Ah, sim. Não. Muito fraca. Por isso que hoje sou tão louca por cerveja. Antes eu bebida de tudo e chegava a minha casa sei lá como, então fui me acostumando com cerveja, que tem menos álcool, e hoje é minha bebida preferida.
— Nossa, que criancinha — zombei, rindo dela.
— Idiota! Não é culpa minha. Acho que puxei para a minha mãe — ela disse, entortando os lábios. — E de criança eu não tenho nada, ok? — encarou-me com um sorriso malicioso tomando conta do seu rosto.

Estremeci.

— Ok. Então me conta a sua maior aventura — sorri, ainda achando graça do seu jeito bobo.
— Saí de casa aos 19 anos quando me assumi lésbica. Fiz aquela tatuagem para representar isso. Fui morar com minha namorada da época, que estava comigo há alguns meses só. Fiquei lá por uns seis meses, mas as coisas começaram a dar errado. Eu já tinha um dinheiro guardado e já estava trabalhando há um tempinho lá na cafeteria que hoje sou gerente. Aluguei um apartamento pequeno bem longe daqui e fiquei assim até ter condições melhores para alugar um melhor. Hoje, depois de muitas brigas e conversas, meus pais engolem minha situação. Minha mãe, que é um pouco mais maleável, até me ajuda um pouco nas despesas. Resumidamente, minha vida é isso — ela contou sincera.


Marina apareceu de toalha, enxugando o cabelo.

— Oi, Alice — cumprimentou-a rindo. — Vou me vestir e já volto para fazer companhia a vocês duas.

Ela voltou para o quarto, deixando-me sozinha com aquela mulher ali. Meu Deus...

— Eu estava indo comprar bebidas — falei.
— Posso ir com você? Não quero ficar sozinha aqui na sala esperando a Marina — ela revirou os olhos.

Eu ri e assenti. Fui até o banheiro rapidamente para avisar que estávamos saindo, peguei meu casaco e então desci com ela. 

— Nossa — disse com os lábios entreabertos. — Nem eu tive essa coragem toda.
— Quem é a criança agora? Quem é? — ela riu, deixando-me sem resposta.
— Olha, mas eu também tenho uma história legal — falei rindo.

A mulher que estava no caixa nos chamou atenção sem paciência, pedindo para pagarmos logo e irmos embora. Dei-lhe o dinheiro, peguei as bebidas e fui seguindo a Alice até o apartamento.

— Conta sua história — ela pediu.
— Ah, desde pequena eu sabia da minha opção sexual, mas me tranquei no armário até os 24 anos, quando conheci a Marina, e então resolvi que estava na hora de me assumir. Meus pais não aceitaram de primeira, mesmo eu não morando mais em casa, mas depois foram vendo que eu estava bem ao lado da mulher que amo — falei, arrependendo-me no mesmo instante de ter citado a palavra “amor”.

Ela abriu um sorriso sem graça e eu desconfiei mais de suas intenções. Não, eu não estou ficando louca... Ela me quer. É claro que ela me quer, mano, pensei. Aquilo só deixava as coisas mais difíceis do que já eram. Eu já estava preocupada demais em lidar com os meus próprios sentimentos... Achar que a Alice também estava interessada me deixava mais perdida ainda. Puta merda.

— Vocês estão juntas há mais de dois anos, não? — perguntou sem jeito.
— É...

Abaixei a cabeça e fomos o resto do caminho caladas.

Chegamos ao apartamento e a Marina já nos esperava sentada no sofá. Alice foi até lá e sentou ao lado dela. Tirei as cervejas da sacola e coloquei no congelador. Peguei três e fui até elas.

— Eu não vou beber, amor — disse a Marina.
— Por quê?
— Tomei remédio ainda agora para dor de cabeça. Falei pra você.
— Hm... E vai ficar aí toda assim? Não vai aproveitar com a gente?
— Acho que vou dormir daqui a pouco. Estou cansada.
— Eu comprei bebida pra nós três, mano.
— Deixa pra próxima, amor. Prefiro ficar sóbria mesmo. Não estou no clima hoje.

Revirei os olhos, entediada com aquele mesmo papo de sempre, fui deixar a cerveja que sobrara no congelador e voltei para ligar o som. Coloquei Kiss para tocar no último volume e sentei ao lado das duas.

— Vocês têm algum jogo legal aí? — Alice perguntou.
— Tenho cartas, mas perdi as fichas para jogar pôquer. Tenho ps2 aqui. Você sabe jogar Guitar Hero? — perguntei.

Marina fez uma cada de tédio, pois odiava aquele jogo (como tudo que eu gostava).

— Não sei muito bem, mas aprendo rápido. Vamos jogar — ela disse sorrindo.

Liguei a tevê da sala, coloquei o jogo e sentei ao lado dela.

— Você não vai brincar? — perguntei para a Marina.
— Não, obrigada. Esse jogo é chato.

Dei ombros e comecei a ensinar a Alice.
Quando lhe expliquei como era, ela entrou em desespero e disse que era péssima em coisas que tinha que pensar rápido. Quase morri de rir na primeira tentativa frustrante dela de jogar. A Marina nos olhava com cara de quem estava achando tudo um saco e aquilo me irritava. Nas três primeiras vezes, ganhei da Alice. Depois, ela começou a pegar o jeito e já era mais difícil vencer.

— Acho que vou dormir — Marina disse, fazendo-me desconcentrar do jogo.
— Não quer mesmo ficar aqui e jogar com a gente?

Ela negou com a cabeça e se dirigiu até o quarto. No começo, fiquei um pouco irritada por ter sido “deixada” ali, mas, pensando bem, eu estava com Alice... E isso já era o suficiente para uma noite boa. Sabe, é a aquela história de “com boa companhia, todo lugar é perfeito”.

— Vamos jogar sério agora? — Alice perguntou.
— Sério como?
— Apostar algo...
— O quê?
— Sei lá. Você tem alguma bebida mais forte aí?
— Acho que tem um pouco de tequila, serve?
— Já disse que não sou fresca com bebidas. Traz pra cá qualquer coisa que eu desço.

Eu ri e levantei para pegar. Voltei sorrindo com uma garrafa que ainda tinha o bastante para umas oito doses.

— Você não vai ficar louca a ponto de não saber onde está, vai? — perguntei, rindo da sua cara.
— Para, meu! Não fico bêbada assim também, né. Mas, de qualquer forma, já aprendi a jogar. Vou ganhar tudo e você que vai acabar bêbada a ponto de não lembrar nem seu nome.
— Rá, duvido!
— Vamos ver então...

Começamos a primeira partida e eu ganhei por alguns pontos apenas.

— Porra! — ela se indignou.
— Eu falei... — sorri da cara dela. — Agora vira.

Coloquei um pouco no copo e dei a ela. Ofereci limão e sal, mas ela negou. Virou daquele jeito mesmo.

— Vamos logo. Vou ganhar agora.
Outra partida. Dessa vez, ela realmente ganhou. Um a um. Nas duas seguintes, eu ganhei. Alice já estava rindo até do quadro na parede. Eu ria da sua cara. Não sei se o álcool a ajudou, mas, nas outras três, ela ganhou. Eu fiquei tão louca quanto ela. A tequila acabou e voltamos a consumir a cerveja. Conversávamos sobre qualquer besteira aleatória que nos vinha à cabeça. Ríamos de qualquer frase mal-elaborada e até do vento que batia mais forte. 
— Você não quer descer para fumar um pouco? — perguntei rindo.
— Sim, sim — ela respondeu tonta.

Levantamos com dificuldade do chão e descemos. Eu, bêbada, nem avisei à Marina. A única coisa que lembrei foi de pegar um casaco qualquer para não morrer de frio lá embaixo.
Ficamos andando em frente ao prédio, conversando baboseiras aleatórias, rindo de todos que passavam. Alice abraçava seus braços com frio e eu tinha vontade de puxá-la para esquentá-la, mas certa voz gritava no meu inconsciente ou sei lá onde e não me deixava fazer isso.

— Alice... — falei baixo com o cigarro ocupando minha boca. — Você sabia que cachorro vira-lata demora mais a morrer?

Ela me olhou sem entender e começou a rir sem controle.

— Você tá louca, meu? — perguntou sem fôlego.
— Sei lá... — disse rindo com ela. — Olha para o céu... A lua está bonita hoje.
— Mano, nem dá pra ver a lua direito daqui — ela disse, perdendo o controle de tanto rir.
— Ah, dá sim, meu. É só você olhar direito. Ela tá ali... Linda.

Alice semicerrou os olhos, direcionando-os para a lua.

— Está vendo agora? — perguntei.
— Vendo eu estou, mas quase não aparece... Não achei linda assim.
— Nossa, que insensível! — briguei, dando um tapa no seu ombro.
— Sua gay.
— Sou mesmo. Pior...

Nós ríamos alto falando coisas sem inícios definidos. Seus olhos escuros me encaravam e meu corpo se arrepiava. Talvez pelo frio. Talvez por ela.

— Você tem outro cigarro aí? — perguntei assim que joguei o que sobrou do meu no chão.
— Só sobraram esses. Tem alguma banca aqui perto?
— Não muito.
— Tem algo aqui perto que vende cigarro?
— Não muito — sorri por repetir a frase.
— Porra, meu, não muito quanto?
— Vamos ter que andar um pouco se nós formos lá.
— Se importa?
— Não.

Sorrimos uma para a outra e começamos nossa caminhada. O assunto nunca acabava. Minha vista ainda estava meio turva. O álcool havia tido efeito sobre mim e sobre ela também. Ainda ríamos de qualquer frase boba que a outra dizia.
Quando chegamos ao bar mais próximo que vendia cigarros, Alice me convenceu a ficar sentada por um tempo bebendo um pouco mais. Pedimos uma dose de whisky para fazer logo o estrago completo.

— Vamos brincar de adivinhação? — ela perguntou.
— Sou péssima.
— E daí? Nem temos dinheiro para apostar como lá na sua casa. Vamos logo, medrosa.
— Ok — respondi sorrindo.
— Então... O que mantém sempre o mesmo tamanho, não importa o peso?

Passei horas inúteis pensando e não obtive uma resposta sensata.

— A balança — ela respondeu rindo da sua própria piada sem graça.
— Dããã. Isso não foi engraçado, meu — respondi rindo da sua cara.
— Você riu, mano. Cala a boca!
— Ri de você, sua besta.
— Sim, você é uma burra. Errou. Eu podia ganhar muito dinheiro seu com isso.
— Hm. É minha vez agora... Vamos ver. O que são vários pontinhos amarelos na parede?
— Meu, odeio piadas de pontinhos. Eu nunca acerto.
— Ah é? — sorri.
— Ah, mano, não sei não. Qual é a resposta?
— Fandangos alpinistas — respondi séria.

Ela riu durante horas, roubando risos descontrolados de mim. Era tão involuntário.
Ficamos muito tempo contando piadas sem graça e rindo como loucas naquele bar vazio. Duas doses de whisky para cada uma, três latas de cerveja. Uma visão completamente embaçada, mas capaz de enxergar o sorriso dela. Ele era tão bonito... Seus cabelos, seus olhos, seu queixo, seu nariz, seus lábios. Tudo. Porra, mano, para com isso, meu subconsciente gritava de novo.

— Minha vez — disse ela.
— Vai — sorri.
— Adivinha o que estou com vontade de fazer agora.
— Como eu vou saber, meu? — respondi rindo.
— Ah, vai chutando...
— Viajar?

— Sim, mas não é nisso que estou pensando.
— Beber mais?
— Sim, mas também não é isso — ela riu.
— Fumar?
— Meu, também não. Para de falar as coisas óbvias.
— Ah, mano, desisto. Fala você.
— Hm... — ela murmurou e me encarou.

Sua mão se dirigiu até a garrafa de cerveja, levando-a até seus lábios. Ela ingeriu mais um pouco daquele líquido e, após isso, se aproximou de mim. Meu corpo estremeceu involuntariamente. Nossos rostos ficaram separados por alguns centímetros apenas. Eu podia sentir sua respiração leve em minha face. Permanecemos em silêncio por alguns segundos, nos encarando fixamente, bem próximas uma da outra. Um nervosismo sem fim corria dentro do meu corpo. Sentia vontade de beijá-la e, ao mesmo tempo, a imagem da Marina me vinha à cabeça. Alguma luz, por favor? O que eu faço?

E foi pensar nisso que ela encostou seus lábios nos meus. Não consegui reagir. Fiquei parada, sem ação. Eu queria aquilo — e como queria... —, mas não era certo. Não era.
Ela entreabriu os lábios, tentando iniciar um beijo. Por alguns segundos, hesitei. Por mais errado que fosse, eu sabia que queria aquilo, e nunca gostei de ter que me controlar mais do que o possível. Aquilo, para mim, era incontrolável.

Permiti-me desligar do mundo. Esqueci a Marina, esqueci o cara que estava no caixa, esqueci as pessoas que passavam em frente ao bar, esqueci minha vida, esqueci tudo. Então, sem mais demora, a beijei.
Um, dois, três, quatro... Perdi a conta depois do décimo beijo. Perdi a conta das horas. Perdi a noção.

— Preciso confessar uma coisa — Alice disse, afastando-se com um sorriso nos lábios. Tentei puxá-la novamente para perto e fazê-la não falar nada, mas ela riu, selou meus lábios e continuou. — Eu quis fazer isso desde a primeira vez que vi você — sussurrou, beijando-me agora.

Afastei-me, encarei-a fixamente e deslizei meus dedos por sua face.

— Infelizmente, eu também...

E o estrago estava feito... Porra.

Alice abaixou o olhar e ficou calada. Arrependi-me no mesmo instante por ter usado aquele termo, mas, apesar de tudo, eu estava sendo sincera... Quis beijá-la sim, porém aquela não era a coisa certa a ser feita e muito menos a ser admitida.

— “Infelizmente...” — ela sussurrou.
— Ei... — entortei os lábios e a puxei para perto de mim. — Para, meu... Para! Desculpa. Eu não queria estragar o momento...

Levantei seu rosto carinhosamente e ela me fitou durante poucos segundos para, em seguida, colar seus lábios aos meus e fazer das atitudes uma única palavra.

Às vezes, palavras só servem para estragar momentos especiais. Não é necessário nada além de uma pequena atitude para se mostrar tamanho sentimento. Basta fazê-lo.

Depois de muito, muito tempo — não sei bem quanto —, fui obrigada a cortar totalmente o clima e propor a volta para o apartamento.

Ela me olhou com os lábios entortados e nada disse. Selei seus lábios rapidamente e levantamos ainda tontas para pagar a conta.

Durante o caminho, fomos cada uma em seu canto. Não conversamos. De vez em quando, nos entreolhávamos e abríamos um pequeno sorriso. Meu olhar pesava sobre seus dedos e diversas vezes senti uma vontade quase incontrolável de entrelaçar os meus aos dela, mas não o fiz... A bolha invisível na qual havíamos nos escondido quando estávamos no bar havia estourado. Por mais que continuássemos no mesmo clima, havia muita gente na rua...
Claro... São Paulo.

Quando chegamos ao aparamento, ela pegou sua bolsa, deu um beijo rápido em meu rosto e então, sem dizer nada, se foi. Minha vontade era de puxá-la e ali beijá-la; porém, eu já havia errado demais naquela noite. Mas, afinal, era errado por quê?
Por que as pessoas têm essa ideia idiota de que pertencemos a alguém? Ninguém pertence a ninguém. Há uma grande diferença entre pertencer e não querer estar com outra pessoa. No caso, eu tinha um compromisso de possessão com a Marina, e isso era o que eu não conseguia aceitar. Apesar de amá-la (amava mesmo?), não era o bastante para mim. Se fosse, eu não teria me interessado pela Alice. Se bem que, antes de ela aparecer, era o bastante (ou não era?).

Tomei a última lata de cerveja que estava no congelador e fui tomar banho. Enquanto a água batia em meu rosto, eu me lembrava dos beijos ímpares que eu acabara de ganhar. Por que aquilo estava me deixando tão desconcertada? Eu, apesar de tudo, era uma pessoa que não concordava com traições. Apesar de achar que as pessoas não pertencem umas às outras, tem a questão do respeito. Se eu e Marina havíamos selado um contrato de nunca ficarmos com mais ninguém, eu não tinha o direito de quebrá-lo. Porém, saiu do meu controle. Fugiu das minhas mãos. Bateu forte aqui dentro e eu não soube fazer parar.

Vesti uma calcinha e me enfiei na cama ao lado dela. Envolvi meu braço em sua cintura e fiquei assim, com seu corpo colado ao meu. Seu cheiro era bom. Cheiro de flores. Tão ela...

Demorei um pouco a dormir por estar perdida num emaranhado de sentimentos. Meus pensamentos se alternavam entre o beijo de poucos minutos atrás e o calor de Marina. Era tão errado sentir aquela vontade incontrolável de ter Alice em meus braços e, ao mesmo tempo, não querer ficar longe do meu grande amor? Tão errado enganá-la?
Eu não estou enganando ninguém. Foi só um beijo, porra. 

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Cigarettes, coffee and you. [parte 2]

— O que aconteceu? — perguntei soltando um riso baixo sem entender o porquê.
— Sabe aquela agência de viagens que tem aqui perto? Pois é, eu falei pra você ontem que estava louca pra viajar. Fui ver os pacotes de viagem, daí o ônibus não chegava e a chuva estava forte demais, então pensei em passar aqui e esperar parar um pouco.

Nossa, você é bem impulsiva... — sorri enquanto abria a porta e a deixava entrar na minha frente.
É, sou mesmo — ela disse entortando os lábios.

Peguei duas toalhas e dei uma a ela.

Quer café? — perguntei.

Ela sorriu e assentiu.

— Cadê a Marina?
— Trabalho... Até tarde.
— Você não trabalha?
— Sim, mas segunda-feira eu só fico até o meio-dia.
— Hm... E você não se importa de eu esperar a chuva passar, se importa?


Neguei com a cabeça e me dirigi até a cozinha. Ficamos em silêncio enquanto eu preparava o café. Ela estava absorta no sofá, olhando para a tevê que acabara de ligar. Eu a encarava hora ou outra para reparar seu belo corpo.

Quer com ou sem açúcar?
Sem.

Coloquei em duas xícaras e levei até ela. Sentei ao seu lado, com os pés no sofá. Meus olhos não sabiam se viravam para a tevê ou para ela, incrivelmente linda e molhada, ao meu lado. Olhei para a sua tatuagem, agora podendo prestar mais atenção. A blusa só me permitia ver a metade, mas era o necessário para entender. Era uma gaiola aberta com três pássaros pequenos saindo dela. Linda. Ela e a tatuagem. Lindas.
— O que significa? — perguntei, encarando-a.
— O que significa o quê? — ela me olhou, arqueando uma sobrancelha.
— A sua tatuagem...
— Ah... Liberdade. Simples e claro. Fiz quando me descobri lésbica — ela riu. — Você tem alguma?
— Sim — respondi levantando um pouco minha camiseta para mostrar uma árvore sem folhas que ficava em cima das minhas costelas.
— E a sua, o que significa?
— Algumas pessoas se escondem embaixo das árvores para não serem atingidas por raios de sol. Eu queria fazer algo que significasse a falta da proteção, pois, para mim, nada tem sentido se a pessoa não se arrisca. Eu não poderia fazer apenas o vazio, então fiz a árvore só com galhos, porque ela não é capaz de proteger ninguém contra raios de sol, então você é obrigado a enfrentá-los.
— Nossa, você pesquisou isso no Google? — ela riu.
— Pior que não. Cheguei a essa conclusão sozinha. Às vezes me sobra muito tempo pra pensar, aí dá nisso.

Alice fez uma cara como se não acreditasse na minha capacidade de pensar numa coisa dessas. Ela riu e começou a perguntar outras besteiras como quantas tatuagens eu tinha vontade de fazer e o que elas significavam para mim. Era engraçado como o assunto fluía leve, mesmo eu não gostando de falar muito.

— Pode fumar aqui? — ela perguntou, já abrindo a bolsa ainda molhada para tirar a carteira de lá.
— Na verdade, não.

Ela deu ombros e acendeu seu cigarro. Ri do seu jeito de não se importar com as regras e pedi um para ela, acendendo em seguida. Entre uma tragada e outra, não conseguia me auto-controlar. Seus lábios me chamavam de certa forma que me fazia perder o fôlego. Era massacrante.

— Qual o lugar que você tem mais vontade de conhecer? — ela perguntou, virando para mim, deixando-me nervosa por estar tão próxima de algo proibido que, sem querer, eu desejava tanto.
— Não sei... Acho que tenho vontade de ir à Inglaterra.
— Você acha? — ela riu. — Eu tenho vontade de ir lá também. Só falta conseguir o dinheiro. Esse trabalho de DJ não me proporciona muitas possibilidades de sair desse país. Se bem que não tenho tanta vontade disso. Adoro esse ar poluído e pesado de São Paulo. Só queria poder fugir de vez em quando. Respirar um pouco.

Puta que pariu, essas palavras são minhas...

— Você é DJ?
— Na verdade, sou gerente de uma cafeteria, mas, como também sou DJ, prefiro colocar essa profissão em primeiro lugar. Sei lá. Eu gosto de sentir que estou fazendo as pessoas se libertarem; voarem.

Caralho.

— É... Minha profissão também é muito empolgante... — ironizei. — Passo horas escrevendo matérias sobre um assalto que aconteceu ou sobre a chuva forte que caiu. Mas, no meu caso, faço as pessoas ficarem preocupadas. Interessante, não?

Ela riu alto.

— Bastante... — disse, tragando seu cigarro.

Seu olhar pousou sobre meu corpo e aquilo me fez estremecer. Não que eu não fosse acostumada com o olhar de mulheres sobre mim, mas eu geralmente não as desejava, então isso pouco importava. O mais intrigante foi perceber algo além de curiosidade em seu exame; enxerguei a mesma vontade que havia em meus olhos.

 O silêncio pairou naquela sala e apenas nos entreolhávamos cheias de segredos, dúvidas, desejos. Sei que só posso falar por mim, mas eu podia ver que havia isso nela também... Ou então alguém havia colocado álcool no meu café e eu estava começando a ficar louca além da conta.
Minha vontade de me aproximar mais do que já estava era quase insuportável. O clima se alternava entre baixo e pesado. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Apenas olhares, tragadas de cigarros e goles de café.

— Combinação perfeita, não é? — ela abriu um sorriso.
— Que combinação? — fiz-me de desentendida.
— Café, cigarros...

Você, pensei.

— Melhor, impossível — respondi.

Nós rimos e Alice começou a falar sobre como começou sua paixão por café e o quão perfeito é seu trabalho na cafeteria. Conversamos durante horas seguidas e de vez em quando meu corpo latejava de vontade de seus lábios novamente, mas eu sempre arranjava forças de algum lugar para me controlar. Sem álcool, sem loucuras, pensei. Ainda bem.
Depois de muito tempo, não ouvíamos mais o som da chuva forte caindo. Por um momento, tive receio de que a Marina chegasse e desse de cara com aquela cena; eu e Alice fumando na sua sala com cheiro de flores do campo. Mas o real problema nem era o cigarro e sim a Alice. Dã, ela não tem como ler em seus olhos a sua vontade, pensava comigo mesma. Ainda assim, o medo tomou conta e eu esperei realmente que ela não demorasse mais ali, apesar de não querer vê-la indo embora hora alguma. O assunto era tão bom, seu sorriso era tão gostoso de ouvir... E seus lábios ainda estavam gritando meu nome.

— A chuva parou — disse ela.
— É...

Droga. Ainda bem. Droga. Ainda bem. Droga. Ainda bem. (Alternância infinita de sentimentos.)

— Acho que já vou.

Permaneci em silêncio e então ela se levantou do sofá, despertando-me uma enorme vontade de puxá-la pelo braço e beijá-la ali mesmo. Mas, não, não foi isso que eu fiz. Levantei e a acompanhei até a porta.

— Fui muito inconveniente? — perguntou ela, com uma mão em sua nuca, antes de ir em direção ao elevador.

Tirando a loucura eminente que você causou em mim nesta tarde, foi perfeito ficar algumas horas conversando com você.

Abri um meio sorriso e neguei com a cabeça.

— Foi bom ter companhia...
— Hm... — murmurou. — Tchau.

Ela sorriu e se virou, deixando-me perdida em intermináveis desejos reprimidos. Fechei a porta e fui arrumar a casa. Tirei o doce cheiro de café misturado com cigarro e com o delicado perfume da Alice, substituindo por bom-ar de flores do campo. Merda.
Coloquei as xícaras de café na cozinha e fui assistir tevê, mas minha mente não me deixava prestar atenção no programa chato que estava passando. Minhas lembranças me prendiam à tarde ao lado da Alice. Porra, para! Você é casada, pensei. Senti vontade de me socar por estar com aqueles pensamentos inapropriados. A Marina é minha mulher... É nela que eu tenho que pensar. Inútil. Não conseguia.
Fiquei assim, perdida em pensamentos, até pouco tempo depois. Marina chegou com bolinhos da padaria. Assustei-me quando a vi entrar pela porta. Eu sabia que não havia nada naquela sala que pudesse entregar meus sentimentos, mas ainda assim eu tinha medo. Sentia como se ela pudesse entrar em minha mente a qualquer momento e ver tudo o que estava se passando lá; tudo o que eu estava desejando.

— Nossa, amor, o trabalho me deixou com uma dor de cabeça insuportável — disse ela. — Como foi seu dia?

Engoli seco. Pensei em esconder o acontecido da tarde, mas a Alice poderia comentar depois, então ela desconfiaria. Eu precisava colocar em minha cabeça que a Marina não tinha o poder de ler minha mente...

— Chato... — hesitei. — A Alice passou aqui mais cedo.

Ela me olhou confusa. O medo invadiu.

— Foi? O que aconteceu? — perguntou arqueando uma sobrancelha.
— Chuva... Ela estava aqui perto, então veio procurar abrigo... E você.
— Nossa — ela riu, sentando ao meu lado.

Relaxei um pouco. Comecei a falar sobre outro assunto. Perguntei como havia sido seu dia e então fiquei alguns minutos ouvindo coisas chatas. Fomos comer, ainda conversando assuntos que não me interessavam, e depois deitar. Friso o “deitar” para depois explicar que dormir não era algo que fazíamos segunda-feira. Até isso fazia parte da rotina. Geralmente, Marina chegava cansada e carente do trabalho, me chamava para a cama e ficávamos abraçadas até sua mão mal-intencionada passar pelo meu corpo e então começarmos tudo.
Apesar de eu e Marina sempre termos tido gostos diferentes, na cama nós éramos feitas uma para a outra. Era incrível a conectividade. Até então, eu nunca havia encontrado uma mulher para me satisfazer tanto.
Aquela noite não fora diferente das outras. Comida, descanso, sexo, poucas horas de sono. É, eu ainda gostava bastante de segundas-feiras.

O resto da semana passou rápido. Nada de interessante. Dias chatos e cansativos. Nenhuma notícia da Alice e eu, de certa forma, agradecia por isso.
O sábado chegou. Eu e Marina estávamos almoçando na cozinha, decidindo o que fazer à noite.

— Quer ir à balada? — perguntei.
— Não estou muito a fim de dançar, amor.
— Bar?
— Movimento... Também não quero.
— O que você quer?
— Ah, não sei... Minha semana foi muito cansativa. Por que não ficamos em casa?

Porra, eu passei a semana inteira em casa. Não aguento mais ficar trancada aqui.

— Meu, eu não quero passar a noite sem fazer nada — reclamei.
— Por que você não chama alguma amiga sua pra cá? Chama aquela Isabela, a sua amiga lá do trabalho. Compra bebida e fica aqui — ela disse sem se importar com meu descontentamento.
— Nos desentendemos no trabalho. O clima entre nós duas está meio pesado.
— Hmmm... — murmurou. — Eu posso chamar a Alice. Vocês duas estão se dando melhor, não? Eu vi que estavam conversando aquele dia no restaurante — ela disse, deixando-me assustada. — E com certeza devem ter trocado pelo menos duas palavras no dia que ela veio para cá por causa da chuva.

Puta merda. Será que ela sabe?, pensei. Mas sabe de quê? Não tem nada pra saber, sua burra!
Assenti, mostrando falso desinteresse. Ela pegou o celular e discou o número da Alice.
Levantei para pegar água na geladeira enquanto elas duas conversavam no telefone. Quando sentei novamente, a Marina já estava desligando com um sorriso grudado no rosto.

— E aí? — perguntei.
— Ela vem. Disse que chega às 21h.

Contive um sorriso. Continuamos almoçando sem nada dizer. Eu e Marina não tínhamos muito o que falar; nossos assuntos eram bem diferentes.

O resto da tarde passou extremamente devagar. Olhava para o relógio de meia em meia hora e ficava agoniada por parecer que os ponteiros não se moviam. Duas horas, três horas, quatro horas, cinco horas... Nada para fazer. Nada para falar. Nada para me fazer rir.
Marina estava deitada no quarto, tentando recuperar o sono perdido da semana, e eu estava na sala, lendo um livro.
Pouco tempo depois, cansei daquelas palavras e resolvi descer para fumar um pouco — já que a Marina me mataria caso me olhasse fazendo aquilo ali. Peguei o casaco que estava em cima da mesa e fui.
Lá embaixo, encostei-me na parede em frente ao prédio e acendi meu cigarro. Estava frio. O movimento, mesmo sendo sábado à tarde, era grande. Vi passar uma garota com cabelos que me lembravam o da Alice. Lembrei dos seus olhos... Dos seus lábios... Do seu corpo. Merda. Que porra de atração é essa?

Quando o cigarro acabou, subi desanimada para casa. Mais três horas de espera. Mais três horas sem nada para fazer. Mais três horas sem ninguém para conversar. Mais três horas de puro tédio. Argh.

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Cigarettes, coffee and you. [parte 1]

O sol bateu forte no quarto, despertando-me de um sonho sem sentido. Minhas pernas estavam entrelaçadas às da Marina. Desvencilhei-me devagar para não acordá-la e me dirigi ao banheiro. Lavei meu rosto, escovei meus dentes e fui até a sala. Porra, domingo! Como eu odeio domingos, pensei. Liguei a tevê em busca de algo para assistir, mas não havia nada além de programas sobre vegetação e coisas que não me interessavam nem um pouco.
Desliguei e deitei-me no sofá, pondo-me a pensar sobre o nada, já que não havia coisa melhor para se fazer, mas logo me cansei, pois o nada, para mim, é demasiadamente desinteressante e monótono. Busquei por algo nas prateleiras ou na mesa da cozinha. Vi um livro qualquer e pus-me a ler.
O silêncio tomava conta da sala enquanto eu estava no sofá, ainda de calcinha e sutiã, lendo. Meus olhos viam cuidadosamente aquelas palavras, mas elas não faziam sentido; não formavam uma frase completa. Meu pensamento estava em outro local, mas eu não sabia bem qual era.
Pouco tempo depois, Marina apareceu na sala com seus cabelos presos num rabo de cavalo alto e bagunçado.

— Que horas são, amor? — perguntou ela, passando a mão pelo rosto inchado de tanto dormir.
— Acho que onze — respondi. — Você quer comer alguma coisa? — perguntei, já me levantando para preparar algo.
— Não precisa. Não estou com fome.

Ela sentou ao meu lado, pegou o controle e ligou a tevê, colocando num canal qualquer, impedindo-me de continuar minha leitura. Tudo bem, sou invisível agora, mas quem se importa, não é?, pensei. Senti-me obrigada a levantar e procurar outra coisa para fazer. Usei a cozinha como refúgio e então fui preparar meu melhor amigo para alegrar minha manhã: café.

Entre um gole e outro, eu reclamava em pensamento dos dias insuportáveis que estava tendo. Dois anos de pseudo-casamento... Puta que pariu, pensei. Mas o real problema não era há quanto tempo eu estava com a Marina, mas sim o que tudo isso tinha se tornado. Eu ainda a amava, ainda a desejava, ainda alcançávamos o mesmo prazer nas relações sexuais, mas a coisa que eu mais odiei desde o começo da minha vida foi a tal rotina. Aquela palavra me doía dos pés à cabeça. R-o-t-i-n-a. Cada letra arranhava meus ouvidos como uma faca afiada. Todos os dias iguais, sem algo novo, sem nenhuma novidade. Tudo parado. Parecia que o mundo não girava mais.
Eu sei, eu sei que me propus a isso no dia que a convidei para morar comigo e ela, com aquele sorriso lindo de sempre, respondeu-me “talvez”, pois sabia das minhas inseguranças, apesar de sempre ter tido certeza do meu amor. Após uma semana, Marina chegou com suas coisas aqui, fazendo-me (se é pra ser clichê, vamos ser) a mulher mais feliz do mundo.
O fato é que não me fazia mal tê-la aqui, mas acabava comigo saber que eu acordaria no dia seguinte e seria aquela mesma coisa: ir ao trabalho, voltar, ter, talvez, uma noite de sexo, dormir e só. Todos os dias. Todas as semanas. Sempre.
Eu queria a Marina. Queria, sim. Mas eu precisava de algo diferente; algo novo. Precisava sentir um vento além do ar poluído de São Paulo batendo no meu rosto. Eu precisava ser uma pessoa nova, pois ser apenas a Anna de sempre estava me aborrecendo. Minha vontade era virar um camaleão para, como ele, poder mudar de pele; mudar só um pouquinho.

Quando minha felicidade momentânea (chamada café) acabou, voltei ao mesmo lugar de antes. Pousei minha cabeça no colo da Marina e seus dedos vieram até meus cabelos, fazendo-me quase pegar no sono.

— Amor, você quer sair para almoçar hoje? — ela perguntou — Estou com vontade de comer algo diferente, não sei.

Comer algo diferente? Pelo menos você só quer isso, pensei.

— Aonde você quer ir? — perguntei.
— Não sei... A Alice terminou com a namorada dela na semana passada e nós tínhamos combinado de sair, mas minha semana foi muito apertada por causa do trabalho, você sabe... Enfim, eu sei que vocês nem se falam muito, mas não custa nada, não é? — ela me encarou com uma carinha triste e, apesar de sentir preguiça de sair de casa, assenti. Era difícil dizer não para a Marina, principalmente quando ela vinha toda carinhosa pedir algo. — Vou ligar para avisar — disse ela, com um sorriso bobo no rosto, fazendo-me rir.

Marina selou meus lábios e foi até o quarto pegar o celular. Deitei-me e continuei assistindo a um programa chato na tevê. Pouco tempo depois, fomos nos arrumar para ir ao tal restaurante que eu nem mesmo sabia o nome.

Quando chegamos lá, Marina e Alice se abraçaram e eu apenas sorri simpática para ela. Sentamos numa mesa distante de todos e então as duas começaram a conversar sobre como relacionamentos às vezes já vêm com o final escrito. Fiquei o tempo inteiro calada, entretida com minha comida, ouvido aquela conversa chata enquanto minha maior vontade era fugir.

— Vou lá fora fumar. Já volto, ok? — falei.

Marina me olhou irritada, pois eu já havia quebrado minha promessa de parar de fumar pela segunda vez na semana, mas pouco me importou. O cigarro ainda era uma das únicas coisas que me faziam aguentar toda aquela mesmice de sempre. A conversa chata delas estava me entediando demais para continuar ali.

 Para falar a verdade, eu nem estava ouvindo direito para saber se era realmente chata, mas não fazia questão de tirar essa conclusão.

— Espera, eu vou também — disse a Alice, iniciando nosso primeiro diálogo do dia.

Ela se levantou, puxando uma carteira de cigarros da sua bolsa. Marina nos encarou com olhar de reprovação.

— Ok. Vou ao banheiro, depois pago a conta e encontro vocês duas lá fora — disse se levantando.

Eu e Alice nos dirigimos até o lado de fora daquele estabelecimento, acendemos nosso cigarro e, pela primeira vez naquela tarde, olhei para ela direito. Seu corpo era bem bonito; seus seios não eram nem pequenos nem grandes, sua cintura era fina e suas pernas também possuíam o tamanho perfeito. Havia uma tatuagem bem bonita no começo de suas costas, perto do seu ombro esquerdo, que ficava visível por causa da sua blusa caída. Seus cabelos castanhos lisos vinham até um pouco abaixo da sua orelha. A presença dela espertara-me mais que o cigarro proibido por Marina que eu estava consumindo.

— Estou com uma vontade infinita de viajar — disse ela, quebrando o silêncio.

Fitei seu rosto que estava direcionado para a rua movimentada e permaneci calada.

— Você não fala muito, não é? — seus olhos viraram para mim.
— É... — levantei um pouco os lábios, mostrando um fraco sorriso.
— Meu, para! Fala alguma coisa — ela disse irritada.

Ri de sua indignação por causa da minha falta de assunto — ou talvez pela minha intimidação por ela chamar tanto minha atenção.

— Eu também queria viajar... — falei num tom baixo dando uma tragada no cigarro.
— E por que você não vai com a Marina?

Porque eu preciso de um tempo só meu. Na verdade, preciso fugir de mim mesma. Preciso mudar de nome por uns dias. Mudar de idade, mudar de identidade. Mudar total.

— É, talvez eu chame...

Dei a última tragada no cigarro enquanto via a Marina atravessar a porta saindo do restaurante. Despedimos-nos da Alice e, de certa forma, agradeci por não tê-la mais por perto. Incomodava-me sentir desejo por outras mulheres. Não que eu fosse um belo exemplo de fidelidade, mas ainda prezava o compromisso que possuía com Marina.
O restaurante não era longe, então fomos andando até o apartamento. Durante o caminho, eu e Marina não trocamos muitas palavras. Comentamos apenas sobre a comida de lá.
Quando chegamos, fomos assistir um filme que estava passando na tevê e ficamos assim até ela pegar no sono. Rotina.

No dia seguinte, acordamos cedo por causa do trabalho. O céu estava mais cinza que o normal e o clima estava frio. Após pegarmos o metrô, acompanhei a Marina até o seu escritório de contabilidade, já que ficava perto do jornal onde eu seria obrigada a passar a manhã inteira escrevendo matérias que, geralmente, não me interessavam em nada.
Por um presente do céu ou sei lá da onde, toda segunda-feira eu trabalhava apenas no turno da manhã. Às 11h eu já estava contando os minutos para poder estar em casa novamente, deitada sozinha entre meus travesseiros, assistindo filmes até a Marina chegar quando já estivesse anoitecendo e passar horas me contando seu dia estressante.
Quase na hora de ir embora, uma chuva sem fim começou a cair. Felizmente, a estação de metrô ficava quase ao lado do jornal, então eu não me molharia muito.
Nunca gostei de chuva, mas, como não tinha outro jeito, corri até chegar ao apartamento. Minha roupa estava molhada e meu cabelo estava “a visão do inferno” quando cheguei diante da porta e me deparei com a Alice, encharcada, com um sorriso sem graça nos lábios. Ela estava incrivelmente bonita, mesmo estando completamente molhada. Seus cabelos desgrenhados grudavam na sua face e sua blusa branca fazia o sutiã aparecer um pouco. Linda. Muito linda

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Not Like The Movies [pt. 21]

Cheguei no estúdio e seria Phelipe o fotógrafo. Ele tentou me cumprimentar com um selinho, porém desviei meu rosto e sorri, fingindo que nada havia acontecido. Trocamos poucas palavras durante as fotos. No final, ele disse que passaria na minha sala para entregar o documento. Eu estava com o trabalho atrasado, então subi rápidamente para encarar o computador. Assim que entrei, meu celular tocava um tanto desesperado. Atendi.

- Alô? - Perguntei sem ver quem era.

- Gi... - Era a Lara. Parecia séria e cansada.

- Oi, amor! Aconteceu alguma coisa? - Perguntei preocupada. Era pra ela estar dormindo, aliás.

- Precisamos conversar! Recebi um recado da agência, mas não dá pra falar por telefone. Podemos nos encontrar à noite?

- Claro!
- Provavelmente ela iria viajar. Coisa de modelo... - Vou chegar um pouco tarde, tô com o trabalho atrasado. Tudo bem?

Desligamos e resolvi não me preocupar. Deveria ser coisa boa, e o seu tom poderia ser só do cansaço.
Fiquei horas fazendo o editorial, até o Phe entrar. Bateu na porta pedindo licensa.

- Está aqui, Gi... - Entregou-me um envelope amarelado. O abri e ele realmente tinha assinado. Achei estranho. Como assim ele está entregando tudo na maior tranquilidade?

- Phe, eu sei que você não deixa as coisas assim... Baratas. O que tem por trás disso? Te conheço há um tempo, não tente me enganar.

- Calma! Calma... As pessoas mudam, Giovana. Outra coisa, não adiantará em nada ficar batendo de frente com você, ou adianta?

- Tem como sair da minha sala? Tenho muito trabalho por hoje.
Retirou-se com um sorriso confiante nos lábios. Liguei para o advogado, pedindo para vir e pegar o documento. Logo o mesmo passaria por aqui.
Almocei na cafeteria e me tranquei na sala novamente. Estava um tanto ansiosa para chegar em casa e ver o que a Lara queria.
Fui a última a sair da redação. O corredor e a cafeteria eram as únicas coisas do andar de cima que estavam acesas. Pensei em passar nos estúdios, ver quem estava lá, mas estava tarde e queria logo encontrar a Lara. O estacionamento estava praticamente vazio. A luminosidade era pouca e, por precaução, com pressa entrei no carro.
O trânsito estava horrível, e aquilo me estressava. Liguei o rádio, na tentativa de me acalmar, mas só piorou! Quando finalmente cheguei, encontrei a recepção cheia. Vários fotógrafos cercando alguma mulher, não pude ver quem era. Repetiam um nome e faziam várias perguntas, porém não também não reconheci por conta do barulho. Entrei no elevador, e apertei o 13º. Pelo menos ali eu estava sozinha. Abri meu blazer e alguns botões da minha camisa. Foi um dia terrível!
Abri a porta e encontrei Lara deitada na cama, assistindo à televisão. Joguei minhas bolsa e meu blazer no sofá, indo em direção à cama.

- Amor... - Suspirei. Deitei em seu colo e sua mão começou a acariciar meu cabelo. - Senti saudade o dia inteiro! É tão ruim ficar no prédio sem você...

- Mesmo?
- Disse manhosa - Pensei em passar lá, mas estava toda atarefada, né?

- Uhum...
- Eu estava virada para a televisão, apenas observando as imagens - O que você queria falar comigo, anjo? - Estava cansada. Fechei os olhos, mas continuava escutando-a.

- Recebi uma ligação hoje de manhã, logo depois que você saiu... Não escutava mais nada. Apenas sentia seu colo e sua carícia gostosa. Outras imagens começaram a passar pela minha cabeça, talvez eu teria caído no sono.

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Além da Eternidαde ‹®› [parte 7]

Já haviam se passado 25 minutos desde que Fernanda havia me ligado, logo ela estaria passando aqui pra me buscar. Resolvi esperá-la la em baixo, não demorou muito e ela já estava estacionando seu carro em frente ao meu prédio. A cumprimentei com um beijo no rosto e fomos conversando sobre a semana que passou até chegar à boate, era pertinho dali. Logo que chegamos escolhemos uma mesa e pedimos algo pra beber. A boate estava lotada e não era nem meia noite ainda. Fernanda era uma ótima companhia – Confesso – era bem humorada, madura, sempre tinha um assunto novo, mas nada me fazia perder a vontade de estar com a Thay, por vezes pensei em dar alguma desculpa pra ir embora e fugir pro apartamento da Thay, mas não conseguia pensar em nada convencível. Dancei umas quatro músicas com a Fernanda e logo nos sentamos de novo. Estava muito quente, resolvemos pedir outra bebida enquanto descansávamos um pouco.

Depois de quatro cervejas eu já estava rindo de qualquer coisa, falando safadezas, dançando sentada, em outras palavras, bêbada. Fernanda havia saído pra dar um telefonema e eu fiquei a esperando, olhei em direção ao balcão tentando pensar em alguma outra bebida pra pedir até que vejo uma loira encostada nele, não muito alta, com um corpo todo desenhado e pelo jeito estava sozinha. – Ah se a Fernanda não estivesse comigo. – Fiquei observando aquela loirinha até que consegui ver o rosto dela, era ninguém menos que a Thay. – O que ela ta fazendo aqui? – Logo reparei que a Angel estava com ela. – Aposto que vieram dançar. – Sorri sozinha. Mas elas não estavam sozinhas, Angel trazia outra menina e a apresentava pra Thay, fiquei observando tudo até que a Fernanda voltou. Disfarcei um pouco, mas continuei observando Thay de longe, havia algo que eu não estava gostando entre as três. Eu tentava conversar normalmente mas meus olhos não desviavam daquele balcão.

Eu sorria pra Fernanda não perceber nada, Angel agora deixava Thay e a outra menina sozinhas – Tudo bem, ela vai buscar uma bebida ou ir ao banheiro. - logo desfiz meu sorriso ao ver Thay e a menina se beijando, uma raiva tomou conta de mim em uma fração de segundos. Desviei meu olhar pra não ver aquela cena ridícula e me levantei da mesa.

Roberta: Já volto, vou ao banheiro. – Saí de perto da Fernanda rapidamente e fui ao banheiro, chegando lá apoiei minhas mãos na pia e fiquei me olhando no espelho relembrando o beijo que eu havia acabado de presenciar. – Pelo jeito ela gostou de ficar com meninas. – Molhei um pouco minha mão e passei em minha nuca. – E daí que ela ta ficando com outra menina? Talvez nem seja a primeira depois de mim. – Forcei um sorriso pra mim mesmo, mas quanto mais eu pensava, com mais raiva eu ficava e tudo que eu precisava naquele momento era de uma bebida extra forte. Sai do banheiro e vi Thay agora conversando com a tal menina, por impulso me aproximei delas.

Roberta: Que surpresa te ver por aqui Thayane. – Rapidamente ela virou pra mim bastante surpresa.
Thayane: Beta, você por aqui?
Roberta: Pois é. Eu mesma. – Forcei um sorriso. A menina que estava com ela percebeu um clima tenso entre a gente e deu a desculpa de que iria ao banheiro e já voltava.
Thayane: Ta tudo bem com você? – Ela estava séria e tensa.
Roberta: Ta e com você? Pelo visto tudo ótimo! – Sorri.
Thayane: Não entendi o que quis dizer.
Roberta: Pelo jeito você gostou mesmo de ficar com meninas.
Thayane: Você viu o... - A interrompi.
Roberta: O beijo de vocês duas? – Sorri irônica – Vi sim.
Thayane: Olha Beta... - A interrompi novamente.


Roberta: Não Thay, tudo bem, você tem mesmo que aproveitar. Como eu disse, aproveita e fica com meninas já que teu namorado ta longe, não é bem traição não. Eu fui a primeira, mas sei que não serei a única. – Sorri – Eu só dei coragem pra você ver que não tem nada de tão errado nisso. Eu sei de algumas boates gls muito boas, quando precisar me procure ok? Bem, preciso voltar agora, boa balada. – Dei as costas a ela.
Thayane: Beta, espera.
Roberta: Beijo Thay. – Andei um pouco entre as pessoas e logo voltei a mesa com a Fernanda.

Fernanda: Nossa, que demora gatinha.
Roberta: Desculpa. – Forcei um sorriso.
Fernanda: Tudo bem Beta?
Roberta: Ta sim, por quê?
Fernanda: Você ta diferente, parece menos animada. Será que a bebida te fez mal?
Roberta: Não. – Sorri com sua preocupação – Deve ser impressão sua. – Olhei novamente em direção ao balcão e agora Thay e Angel estavam conversando, logo chegou a menina e abraçou Thay por trás. Desviei meu olhar porque a raiva já tomava conta de mim outra vez. Pedi outra bebida e outra e mais outra. Eram quatro horas da manhã e eu estava muito bêbada que nem conseguia me equilibrar em pé. Fernanda passou meu braço por cima do seu ombro, me abraçou pela cintura e eu cai no sono.

13h30min: Comecei a abrir meus olhos aos poucos, pelo jeito que a claridade invadia meus olhos dava pra perceber que já era dia, olhei no relógio e marcava 13h30min. Minha cabeça doía muito e eu não lembrava de nada, absolutamente nada. Peguei meu celular no criado-mudo e vi que tinham 11 chamadas da Fernanda, resolvi ligar de volta.

Fernanda: Oi Beta. – Ela falava baixo, mas pra minha dor de cabeça parecia que ela estava gritando.
Roberta: Oi Nanda, tudo bom?
Fernanda: Tudo. E você, melhorou?
Roberta: Melhorei do que?
Fernanda: Do porre que você tomou. Tive que te levar em casa, tirar sua roupa, te dar um banho e colocar você pra dormir. – Olhei meu corpo e eu estava nua.
Roberta: Oh Nanda, me desculpe, exagerei na bebida ontem. Nossa, que vergonha.
Fernanda: Tudo bem. – Ela sorriu - Te perdôo com uma condição. – Eu sorri agora.
Roberta: Qual?
Fernanda: Que você aceite jantar comigo hoje.
Roberta: Oh Nandinha, não vai dar. Hoje vou tocar na Mix Sul, preciso ir cedo pra lá pra ajeitar os equipamentos.
Fernanda: Podia ao menos me convidar pra ir te ver né? – Sorri novamente
Roberta: Claro, faço questão que você vá.
Fernanda: Perfeito. Até a noite gatinha.
Roberta: Até a noite. – Desliguei.

Minha cabeça estava me matando, coloquei uma roupa e fui me arrastando até a cozinha procurar algum remédio pra dor de cabeça até que achei um paracetamol. – Olha o tamanho disso, cara! – Larguei o comprimido na pia, peguei uma faca e o cortei no meio. – Ainda ta grande, não vai passar. – Cortei ele em mais dois pedaços, enchi um copo com água e o engoli. Voltei pra cama e aos poucos fui lembrando de tudo – ou quase tudo – que havia acontecido na noite passada. A Thay com a menina, o beijo delas, o abraço que a menina havia dado nela – Impressionante como a gente sempre se lembra do que não deve nessas horas – E a raiva tomou conta de mim mais uma vez. – E daí que elas ficaram? Eu tenho a Fernanda, eu tenho o mundo, pra que ficar me martirizando pensando nisso?! – Por mais que eu não entendesse bem, isso me deixava um pouco mal. A tarde passou rápido, logo me levantei, tomei um banho bem gelado pra curar o que havia restado da ressaca da noite passada, arrumei meus equipamentos, me arrumei e fui pra Mix Sul.

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Além da Eternidαde ‹®› [parte 06]

Roberta: Alô?
Xxx: Oi Roberta, é a Fernanda, lembra de mim? – Ouvi seu sorriso.

Roberta: Oi Fernanda  Putz, justo agora.  Lembro sim, tudo bom? 
Fernanda: Tudo ótimo minha linda e com você?
Roberta: Tudo em ordem também. Que surpresa você me ligar.
Fernanda: Ah, bateu saudade. – Ela sorriu – E aí, o que vai fazer daqui uma meia hora?
Roberta: Ah... - ver a Thay  ...nada, porque? 
Fernanda: Quer ir comigo na boate do calçadão? Não aceito não como resposta hein. – Eu dei um sorriso.
Roberta: Sendo assim eu aceito.
Fernanda: Ótimo. Eu passo na sua casa pra te pegar, pode me passar o endereço? 
Roberta: Claro. Sabe o quiosque Parada Certa da praia?
Fernanda: Sei, tem umas bebidas ótimas ali. – Ela sorriu.
Roberta: Oh sua pinguça! – Sorri também – Então, é no prédio que fica na rua de trás dele.
Fernanda: É o único ali no quarteirão né?
Roberta: Esse mesmo.
Fernanda: Eu sei onde é, daqui meia hora passo aí. Beijo.
Roberta: Combinado. Beijo. – Desliguei. Ótimo, nem queria ver a Thay mesmo! Resmunguei. 


Enquanto isso no apartamento da Thay
Thayane: Angel, preciso falar com você. 
Angel: Que foi japa?
Thayane: Eu tenho que te contar uma coisa.
Angel: Pode falar. – Ela folhava sua revista.
Thayane: Sabe a Beta, amiga do Chris?
Angel: Sei, a DJ, o que tem ela?
Thayane: Eu... - Ela ficou muda por alguns segundos - ...fiquei com ela. – Angel a olhou surpresa.
Angel: Você o que?

Thayane: É, eu fiquei com ela. Eu tava curiosa pra saber como era ficar com uma menina e como ela é bi eu fiquei com ela. Eu to te contando porque sei que você também já ficou com meninas, pára de me olhar assim poxa. 
Angel: E você gostou? – Ela sorriu.
Thayane: Eu não sei. – Se jogou no sofá – Eu não consigo parar de pensar no beijo dela.
Angel: Aiaiai, você não se apaixonou por ela né Thay?
Thayane: Credo, claro que não!
Angel: Credo por quê? É a coisa mais normal, embora seja mulher com mulher, claro.
Thayane: OMG – arregalou seus olhos – Será que eu to apaixonada por uma mulher?
Angel: Só tem um jeito de saber.
Thayane: Qual jeito? – Temeu a resposta de sua amiga.
Angel: Você ficar com outra mulher pra ver se sente o mesmo. 
Thayane: Ficar com outra mulher? – Fez expressão de confusa – Não pode ser a Beta?
Angel: Não. – Sorriu – Ficaria com a Beta de novo?
Thayane: Ficaria.
Angel: Nossa, não precisou nem pensar. – Começou a rir.
Thayane: Não ri Angel, é sério! – Começou a balançar Angel.
Angel: Fica com outra menina e compara os beijos. Se você gostar dos dois, bem vinda ao clube das bi. Agora se você gostar somente do beijo da Beta, bem vinda ao clube das apaixonadas.
Thayane: Mas onde vou achar outra menina lésbica ou bi, sei lá?
Angel: Vamos à boate do calçadão, é uma boate gls, eu ia direto lá.
Thayane: Ta, vou me arrumar e nós vamos, espera.

  

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