No domingo, acordei tarde e encontrei a Marina assistindo tevê no sofá. Ela me perguntou como havia sido a noite passada e eu apenas disse que passamos o tempo inteiro apostando quem ganhava nos jogos aleatórios que escolhíamos. Enfim, uma noite agradável. Porém, havia sido um pouco mais agradável que o esperado — na verdade, bem mais.
Rapidamente, fiz o esforço de tirar aquelas lembranças da minha cabeça. Não faria bem pensar nelas agora, principalmente com a ideia idiota de que Marina poderia ver pelos meus olhos o que eu sentia.
No fim do dia, ela me convidou para ir ao shopping comprar sapatos. Como eu odiava fazer compras, fiz de tudo para continuar deitada na cama o resto do dia, mas, no fim, fui obrigada a enfiar uma roupa e caminhar até aquele lugar chato. Compras, compras e mais compras. Tédio total. Caras desconhecidas, lugares monótonos. Tudo chato. Voltamos para casa e não demoramos a dormir. A mesma rotina. A mesma falta de assunto. Mesmo tudo.
Na segunda, acordamos cedo para trabalhar. Vesti-me com preguiça e tomei mil xícaras de café para criar coragem e descer para enfrentar mais um dia insuportável.
Eu estava fazendo uma matéria sobre a baixa umidade de São Paulo quando meu chefe chegou com um envelope roxo para me entregar. Olhei para ele sem entender e o vi virar as costas, calado. Arqueei uma sobrancelha e o abri. Dentro havia uma folha branca com palavras escritas com caneta preta.
"Meu, eu sei que é loucura isso, mas não aguentei. Eu mandaria uma mensagem para o seu celular se soubesse o número. Ainda bem que você me disse que trabalhava perto da estação Vergueiro. Não foi muito difícil achar um jornal perto daí. Era o único.
Você sai do trabalho cedo hoje, não é? Falei onde é a cafeteria que trabalho? Fica perto da estação Brigadeiro. Imagino que você vá inventar alguma desculpa, pois acho que se arrependeu do que aconteceu no sábado, mas espero realmente que você aceite o convite.
Como não tenho planos pro almoço hoje, pensei em convidar você pra fazer algo. Podemos almoçar juntas ou sei lá. Por que você não passa aqui quando acabar seu expediente? Eu queria muito conversar com você.
Nada de importante. Na verdade, eu só queria te ver.
Enfim, é isso. Qualquer coisa, me liga. O número do meu celular está no verso da folha.
PS: queria lhe dizer que, mesmo sendo amiga da Marina, não consigo me arrepender do que fizemos.
Alice."
Senti meu coração mudar de ritmo. Ansiedade, preocupação, medo, felicidade... Tudo se misturou. Mano, o que eu faço? Puta merda.
Perdi completamente o foco do texto que estava fazendo. Salvei o que já estava escrito e desci por cinco minutos para buscar calma com ajuda do meu refúgio: cigarro.
Entre uma tragada e outra, desesperava-me sem saber se deveria ou não aceitar seu convite. O rosto sincero da Marina me vinha à cabeça e minha coragem se esvaia. No mesmo instante, lembrava do perfeito sorriso da Alice. Caralho, eu estou fodida. Completamente fodida.
Quando o cigarro acabou, subi para terminar meu trabalho. Após o segundo texto ser completado, olhei para o relógio e percebi que meus minutos para decidir estavam acabando.
“Enfrentar os raios de sol”, pensei. Foda-se. O bom está aí para ser experimentado.
Enfiei as chaves de casa e meu celular no bolso da calça e fui para o metrô, direto à Estação Brigadeiro. Meus lábios estavam vermelhos de tanto serem mordidos por causa da ansiedade e do medo. Em menos de meia hora depois, eu estava entrando na cafeteria. Após colocar meus pés dentro daquele lugar, avistei a Alice distraída perto da maquina de café.
— Oi — falei ao chegar perto dela.
— Você veio — ela exclamou, sorrindo ao me ver.
— Não... Ainda estou lá. Sou a alma da Anna aqui — brinquei.
— Grossa! — ela reclamou, empurrando-me devagar.
Ela estava tão linda. Seus cabelos estavam presos e seus olhos estavam bem maquiados para o dia, mas nada absurdo. E seu corpo... Ah, seu corpo...
— Onde você quer almoçar? — ela perguntou.
— Não sei. Tanto faz.
— Nossa, que mulher sem opinião...
— Sem opinião o caralho, meu — eu ri. — Você que me convidou. Não tive nem tempo pra pensar nisso.
— É, eu tive... Mas fiquei com receio de escolher algo que você não gostasse.
— Não sou fresca com isso. Gosto de tudo.
— Gosta de comida japonesa?
— É, não — ri alto da minha contradição.
— Então pronto — ela riu.
— Gosta de carne?
— Até demais.
— Quer ir a uma churrascaria? Conheço uma muito boa aqui perto. É meio cara, mas vale à pena.
— Ah, meu, dinheiro é pra se gastar. Foda-se. Vamos.
Ela sorriu, pegou sua bolsa que estava atrás do balcão, avisou à garota do caixa que estava saindo e então fomos. Não houve necessidade de pegar metrô ou ônibus, pois a churrascaria era mesmo bem próxima dali. Sentamos numa mesa distante e fizemos nosso pedido.
— Pensei que você não ia aceitar meu convite — ela disse, ajeitando-se na cadeira. — De qualquer forma, ainda bem que veio.
Abri um sorriso verdadeiro e então começamos a conversar sobre assuntos aleatórios que nos vinham à cabeça.
— Vai, vamos fazer um acordo então... Eu conto pra você a minha história mais constrangedora e depois você me conta a sua, ok? — ela propôs, após eu recusar, pela décima vez, falar sobre tais assuntos.
— Argh. Você é muito chata, meu — eu ri e assenti, aceitando finalmente.
— Hmmm, me deixa pensar... — ela parou por um momento — Aos doze anos eu estava em casa com minha primeira namoradinha e a Maria, que trabalhava na minha casa naquela época, nos encontrou peladas em cima da cama. Nesse tempo, nós nem fazíamos coisas sérias, mas tem sempre aquelas brincadeirinhas infantis sem maldade, né — ela disse rindo.
— Doze anos, meu?
— É... — seu rosto ruborizou, mas ela ainda continuava com aquele sorriso lindo nos lábios.
— Ah, mas essa história nem é tão constrangedora...
— O que você queria? Que me encontrassem com a cara no meio das pernas da guria, meu? — ela revirou os olhos e riu em seguida. — O pior é que já encontraram...
— COM DOZE ANOS? — arregalei meus olhos.
— NÃO, MANO — ela riu. — Minha ex me encontrou com outra ex, sendo que isso foi uma noite depois de ter dormido com ela, ou seja... Enfim, foi uma merda.
— Falou a senhorita cheia de ex-namoradas...
— Cala a boca, meu.
— Nossa, você é muito má. Coitada da guria que se iludiu com esse rosto bonito...
— Não sou má, idiota... Eu só estava um pouco alta por causa do álcool... E às vezes parece que algo incorpora no meu corpo, porque vou te contar...
— Ah, então quer dizer que o que aconteceu no sábado foi por causa do álcool? — falei como se fosse brincadeira.
— Mano, claro que não — ela riu. — Eu estava bêbada, mas já falei... Eu queria fazer isso desde aquele almoço no domingo. O álcool só me deu coragem — falou sincera.
Meu coração acelerou de uma forma idiota e eu tive vontade de me socar por isso.
— Você se arrependeu? — ela perguntou baixo, olhando-me receosa.
Mordi meu lábio inferior e me arrependi de ter tocado naquele assunto.
— Anna, não precisa responder se não quiser — pausou por um minuto, ainda esperando uma resposta — Sabe, ouvi dizer que a sobremesa daqui é muito boa... — tentou fugir do assunto.
— Acho que não — respondi.
— Como não? Todos que já vieram aqui dizem isso, mano.
— Não isso, meu — revirei os olhos.
— Hã?
— Sua lerda. Acho que não me arrependi— pausei. — Na verdade, eu não me arrependi — abaixei a cabeça, criando coragem para dizer mais coisas — Mas não acho que essa foi exatamente a coisa mais legal a se fazer, entende?
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Quer mudar de assunto? — ela perguntou.
— Não me importo de falar disso — respondi sincera. — Só que não sou acostumada a comentar muito sobre meus sentimentos.
— Rá, pois trate de se acostumar. Eu gosto de sempre deixar as coisas bem claras — disse com um sorriso lindo no rosto.
— Você vai ter muito trabalho em arrancar “as coisas” de mim — sorri.
— Ou não, hein... Nada que uma lingerie bonita não resolva — ela riu alto. — Brincadeira... — seu rosto ruborizou então ela mudou de assunto. — Enfim, meu, você não contou sua história constrangedora. Vai, conta. Eu já contei a minha.
Comecei a falar sobre minha adolescência e coisas bem desconcertantes que aconteceram na minha vida. A comida chegou e passamos horas ali, mesmo depois de comermos até a sobremesa, ainda descrevendo histórias e rindo uma da cara da outra. Era tão bom conversar com ela.
Depois de bastante tempo, olhei receosa para o relógio e ele já marcava 15h30. Ainda ficamos alguns minutos enrolando e acabamos nos despedindo às 16h. Dei um beijo rápido em seu rosto, controlando-me para não fazer mais nada ali, e então fui embora com um sorriso enorme nos lábios. Olhei para trás e ainda a enxerguei. Ela sorria. Sorria para mim.
Dessa vez, não contei à Marina o que havia feito durante o dia. Apesar de não termos falado sobre isso, eu e Alice fizemos um pacto silencioso de segredo mútuo. Com os dias, fui me acostumando a pensar nela sem temer a descoberta da Marina. Minhas memórias e imaginações voavam em volta disso. Às vezes, eu dava por mim e tentava parar. Marina, eu lembrava, mas logo aquele sorriso aparecia de novo na minha mente.
Eu havia dado à Alice o número do meu celular, mas mesmo assim não conversamos durante o resto daquela semana; porém, isso só me custou mais horas tentando imaginar o que ela estava fazendo e me lembrando de tudo.
No fim de semana, eu e Marina saímos para um bar qualquer, mas não demoramos muito tempo. Pela falta de assunto, logo ela se cansou e inventou uma dor qualquer para voltar.
Segunda-feira. Diferente de todas as outras, acordei ansiosa esperando algum convite ou, caso contrário, dessa vez eu mesma convidaria. Fui para o trabalho com uma felicidade eminente estampada no rosto. Até às 10h, nenhuma notícia. Resolvi, então, agir.
“Vc quer almoçar hj?”, digitei e enviei a mensagem.
Um minuto. Dois minutos. Três, quatro, cinco... Nada de resposta. Ao décimo, eu já estava com a carteira de cigarros na mão, prestes a descer para fumar e me acalmar um pouco, quando Alice finalmente respondeu.
“Q horas e q lugar?”
Simples. Prático. Direto.
Sorri feliz e satisfeita por conseguir o que queria e respondi que passaria lá para levá-la.
Fui buscá-la ao meio-dia. Alice já estava na porta me esperando. Levei-a ao restaurante de massas que ela vivia comentando. Não que fosse um grande presente, mas eu guardava tudo que Alice dizia em minha memória, então resolvi fazer algo que a agradasse.
Como o esperado, conversamos durante horas e quase não conseguimos nos despedir. Novamente, sem beijo, mas nossas mãos já trocavam carícias durante conversas avulsas, o que me acarretava constantes arrepios por todo meu corpo e fortes batidas do meu coração filho da puta.
— Ei — ela disse, antes de ir para um caminho diferente do meu.
— Oi — falei, aproximando-me.
— Próxima segunda você irá almoçar comigo, certo? — perguntou e eu assenti. — Então... Hm... Essa vai ser a minha vez de fazer a surpresa.
— Encontro você aqui?
— Sim.
— Mesma hora?
Ela assentiu, sorriu e virou-se para ir embora.
Uma semana? É muito tempo. Puta que pariu.
E foi assim. Uma hora se tornou três. Doze horas se tornaram um dia. Dois dias se tornaram cinco. Seis dias se tornaram um mês.
168 horas de Alice. Na verdade, 168 horas que eu passei pensando nela. Se dividir por três e tirar um terço, que era o equivalente às horas de sono que eu tinha por dia, se torna apenas 58 horas. Porém, sonhei com ela em algumas noites — as que eu me lembro. Em alguns sonhos, ela apenas passava sorrindo para mim. Em outros, meus desejos reprimidos tomavam conta e eu já estava no banheiro mais próximo, trancada com ela, realizando meu desejo de tê-la. Tê-la completamente. Tê-la só para mim.
Finalmente, sete dias se passaram. Sete monótonos e cansativos dias. Algo arranhava meu peito por dentro. Saudade, talvez. E por quê? Por que isso?
Acordei cedo para arrumar-me da melhor forma possível. Estava frio. Calça, tênis, blusa básica, casaco e pouca maquiagem. É, não estava tão bom assim, mas eu não podia fazer melhor; caso contrário, a Marina desconfiaria... Ou não, já que ela não reparava em mim há um bom tempo, mas era preferível não arriscar.
As horas passaram devagar enquanto eu estava no trabalho. Parecia que o relógio estava ali só para me irritar. Era como se ele gritasse “Meus ponteiros não se movem, meus ponteiros não se movem, meus ponteiros não se movem”. Café resolveria. Não resolveu. Cigarros resolveriam. Não resolveram. É, não teria outro jeito a não ser esperar as horas pararem de brigar comigo. Uma hora elas teriam que parar...
E pararam. Depois de muito, muito tempo, elas pararam. Meio-dia. Hora de almoçar. Hora de vê-la. Hora de Alice.
Peguei minhas coisas que estavam em cima da mesa, enfiei no bolso da calça e corri para o café. Cheguei até mais rápido que o normal. Ela ainda estava lá dentro, atrás do balcão.
— Cedo demais? — perguntei.
Ela me olhou e sorriu.
— Hora certa.
Puxou suas coisas que estavam lá atrás com ela e deu tchau para as meninas.
— Aonde vamos? — perguntei.
— Mano, eu falei que era surpresa. Para de ser curiosa — ela brigou.
— Não sou curiosa. Só perguntei por perguntar.
— Sei... — disse rindo.
Pegamos o metrô direto para a estação Alto do Ipiranga. Eu não tinha a mínima ideia de onde iríamos.
Após sairmos da estação, andamos um pouco até pararmos em frente a um prédio de uns dez andares. Bem bonito até.
— Quem mora aqui? — perguntei.
— Tá se fazendo de burra? — ela riu. — Eu, mano.
Sétimo andar. Dois cigarros apagados no cinzeiro. Uma lata de cerveja em cima da mesa. Um livro aberto jogado no outro sofá.
Eu estava sozinha na sala, fumando, enquanto Alice estava na cozinha, preparando algo que não queria me contar o que era. Ela veio até mesa que ficava atrás do sofá, sorriu para mim quando, inutilmente, espiei curiosa para tentar descobrir o tal mistério, mas ela foi embora, deixando apenas dois pratos e os talheres ali. Após alguns minutos, Alice sentou à mesa e me chamou.
— Filé à parmegiana. Gosta? — perguntou, sorrindo para mim.
Adoro, mas, na verdade, pouco me importa a comida agora. Estou mais interessada em você. Mais interessada na sua companhia. Mais interessada no seu corpo. E que corpo...
— Muito — sorri.
Durante o almoço, eu a observava enquanto ela contava sobre seus sonhos de quando era criança. Porém, diferente de todo mundo, Alice sonhava em casar de véu e grinalda com uma mulher — um sonho bem difícil para uma paulistana nata. Achei graça das suas vontades e também comentei sobre o sonho que eu tinha de achar aquele tal amor eterno. Mudei de assunto ao perceber que estava deixando-a constrangida por falar disso sabendo que eu era “casada” e, então, Marina deveria ser meu amor eterno.
E não era?
Quando o almoço terminou, Alice me ofereceu sorvete de flocos e então fomos sentar no sofá. Ela colocou um DVD de um filme qualquer e sentou ao meu lado, aninhando-se em meu corpo.
Certa hora, sujei um pouco meu dedo com sorvete e coloquei no seu rosto.
— Meu, para! — ela gritou rindo e depois pegou um pouco para sujar meu nariz.
— Ei, isso não vale! — briguei.
— O que não vale?
— Você não pode me sujar, mano. Só eu posso — sorri.
— Ah é? — ela sujou toda sua mão de sorvete e passou na minha cara.
— Meu, eu vou matar você! — levantei do sofá e joguei uma almofada na cara dela.
— Para, mano — ela gritou e veio pra cima de mim.
Peguei outra almofada, mas ela me abraçou por trás, segurando meus braços.
— O que você vai fazer agora, hm? — perguntou, rindo.
— Vou matar você na hora que me soltar — falei, parando de me mexer.
— Vai, é? — ela disse, aproximando seus lábios da minha nuca.
Meu corpo se arrepiou. Puta merda, meu. Ela não sabe onde tá se metendo...
— Maaaaaano... — soltei um riso baixo.
— O que foi? — sussurrou baixinho, perto do meu ouvido.
Sua mão esquerda soltou um de meus braços e desceu pelo meu corpo. Estremeci. Ei, sua burra, faz o que você disse que ia fazer. Para de ficar aí parada, meu inconsciente gritou. Caralho, não dá... Continuei imóvel, sem conseguir falar uma coisa sequer. Virei-me devagar e ficamos frente a frente, caladas, separadas por um centímetro de distância. Um centímetro que me deixava louca.
— Me deixa limpar isso... — ela disse baixo, sorrindo, passando a mão devagar por minha face.
Após alguns segundos, aproximei-me um pouco mais, acabando com aquele único centímetro enlouquecedor que nos separava, e então a beijei. Um beijo calmo, carinhoso e apaixonado. Puta que pariu, meu, o que essa mulher tem? O que ela tá fazendo comigo?
Meus braços a envolveram pela cintura e então desci minha boca até seu pescoço. O clima mudou de delicado para abrasador em questão de segundos. Minhas mãos entraram por debaixo da blusa dela e passearam pelas suas costas quentes. Mano, eu tô com vontade de acabar com você.
Sem demora, fui levantando meus braços, tirando sua blusa devagar, pouco a pouco, enquanto meus lábios provavam da sua pele, ombro, pescoço... Sutiã. Porra!
Minhas mãos, que ainda estavam em suas costas, fizeram o favor de abri-lo, e então tive o caminho livre. Finalmente. E aquilo, se não era, chegava bem perto do paraíso. Minhas mãos, então, mudaram de caminho. Das suas costas, passaram à frente da sua calça; mais necessariamente aos botões que estavam sendo desabotoados. Um, dois três. Outro caminho livre. Com isso, a esquerda desceu por baixo da sua calcinha, fazendo-me senti-la. E ela estava molhada. Bem molhada
Aquela mulher me deixava mais louca a cada toque, beijo, mordida e ameaça de começar o jogo de verdade.
Três, dois, um... Valendo.
Seus lábios foram descendo pelo meu corpo e sua língua passava pela minha barriga, fazendo meu corpo se arrepiar por completo... Bem lentamente. Bem cruel... Meu coração pulsava num ritmo irregular pedindo por mais. Aos poucos, Alice tirou minha calça e parou bem no lugar que tanto implorava por ela.
Eu via cores se misturando numa imagem embaçada. Espectro. A pele suava e respiração estava ofegante.
O jogo não vai acabar assim não, gata... Ah, não, não vai mesmo.
Levantei do sofá que eu estava deitada, joguei Alice lá e deitei por cima dela. Minha mão brincava entre suas coxas, provocando-a, fazendo-a implorar por mim. Meus lábios se alternaram entre sua orelha e seu pescoço. Depois, entre seus seios e seu umbigo. E, sem demorar muito, cheguei onde eu queria. E foi lá que, além de ver um arco-íris se movendo, ouvi gritos de prazer daquela mulher. Ela estava me tirando do sério. Fazendo-me enlouquecer por completo.
Cada centímetro do meu corpo gritava pelo seu. Implorava. Pedia. Chorava. Desesperava-se.
Mano, essa mulher vai acabar comigo...
Quando eu estava prestes a vencer aquela batalha, acabando com o empate, Alice virou-me para ganhar. Três, dois, um... Segundo round valendo.
Puta que pariu, meu.
Pouco tempo depois, rendi-me. Sem forças para lutar, ela venceu. Venceu lindamente, sorrindo da minha cara de derrotada sem fôlego. Alice veio para cima de mim, selou meus lábios com um sorriso malicioso no rosto e então se aninhou em meus braços. Eu queria levantar dali e recompensá-la. Dar a ela cada segundo extasiante que havia recebido. Queria fazê-la desesperar-se. Ficar derrotada, caída no chão, assim como eu estava por ela. Apaixonada. Mas precisei de pelo menos um minuto para me recuperar. Ela havia acabado comigo. Acabado. Um a zero.
Ainda bem que sempre tem força extra em algum lugar.
— Você acha que vai ficar por isso mesmo, é? — eu ri, sentando em cima de sua barriga. — Rá, você precisa aprender um pouco mais sobre mim — falei, descendo minha mão para o lugar de onde ela não deveria ter saído há alguns minutos antes.
E então eu fiz o que precisava ser feito. Torturei-a. Brinquei com seus sentimentos naquele jogo. Um, dois, três. Fim do terceiro round. Um a um.
Após horas de completo desespero na arena deste jogo, Alice e eu ficamos deitadas uma de frente para a outra, bem coladas. Era como se não houvesse dois corpos ali; apenas um, coberto de sentimentos recém-descobertos.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Não era um silêncio que incomodava. Ao contrário. Meus dedos, hora ou outra, brincavam por sua face e nossos lábios se encontravam.
— Você se arrependeu? — ela perguntou baixo sem me encarar.
Que pergunta é essa, mano? Sério, meus gemidos pareciam falsos? Mas, além disso, meu coração... Não dava pra sentir?
— Claro que não, meu — olhei para ela sem entender.
— Desculpa estar perguntando isso — fitou meus olhos. — Eu falei que gostava de deixar tudo bem claro...
— É, eu lembro — ri. — Não, eu não me arrependi, Alice — repeti.
— Certeza? — disse receosa.— Meu, eu adorei passar a tarde inteira com você, como adoro todas as vezes, mesmo quando só almoçamos juntas. Mesmo quando só vejo você por dois segundos. Fico feliz até quando penso em você. Só em me lembrar de você...
Eu não estava acostumada a falar sobre meus sentimentos e aquilo, de certa forma, até me incomodava, mas valia a pena. Vê-la sorrindo me trazia uma paz sem tamanho. E foi assim. Ela sorriu e me fez sorrir também, involuntariamente.
— Acho que estou ultrapassando os limites...
— Como assim? — perguntei.
— Não sei... É como se estivéssemos em uma corrida... E eu sinto que estou muito à sua frente.
— Isso é bom ou ruim?
— Eu quero dizer que estou me apegando demais, meu — ela disse, encarando-me séria.
Você está apaixonada? Porra, e não está claro que eu estou também? Meu, nós estamos fodidas. Totalmente. Completamente. Ridiculamente fodidas. E eu estou feliz por isso. Feliz por nós.
— Acrescente mais alguns passos ao lugar que você acha que estou. Após isso, acrescente mais uns cinco. É, eu estou bem aí... — sorri. — Bem ao seu lado — minhas mãos passaram por cima de seu peito esquerdo. — Bem aqui.
E então a beijei. Agora era declaradamente um beijo apaixonado. Sem riscos, sem esconderijos, sem desculpas.
Sempre fui muito controlada com meus próprios desejos, mas agora parecia que tudo havia saído do meu controle; eu o sentia escorrendo pelas minhas mãos como água. Mas, apesar disso, era bom. Era muito bom me sentir assim; me sentir viva.
Ela vai me deixar louca... Vai acabar comigo.
E, de certa forma, só naquele momento já havia acabado. Já havia me feito cair..